LIKNO - Summit and Trench
(WolfKult Religion)
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Existe um tipo de banda que não parece interessada em ocupar espaço, mas sim em abrir fendas. Os gregos da LIKNO operam exatamente nesse território: música como ritual de passagem, como travessia silenciosa entre estados emocionais extremos, atingindo pontos em que poucas bandas do Black Metal atual conseguem atingir. Em “Summit and Trench”, seu segundo álbum lançado no último dia de 2025 pela gravadora WolfKult Religion, o grupo abandona qualquer resquício de concessão e entrega uma obra que não pede apenas audição do ouvinte: exige entrega.
Se o debut homônimo apresentou uma entidade profundamente enraizada no espírito do black metal norueguês dos anos 90, este novo trabalho não amplia horizontes geográficos, mas afunda mais fundo no próprio abismo que a banda começou a cavar. Menos variação, menos ornamento, menos harmonias. Em troca, o duo oferece densidade, andamentos altamente hipnóticos e uma sensação constante de isolamento.
A faixa de abertura, “From Summit to Trench”, funciona como um lento processo de aclimatação. Nada aqui é imediato. O riff central se repete como um mantra, mas nunca exatamente da mesma forma: pequenas alterações de timbre, dinâmica e intenção transformam a repetição em imersão. O andamento contido cria uma sensação de suspensão temporal, enquanto a bateria atua mais como força gravitacional do que como motor. Ritmos atualmente esquecidos pelo Black Metal.
Os vocais surgem distantes, cortantes, como se fossem carregados pelos ventos da escuridão, nunca à frente da música, sempre dissolvidos nela. Quando os teclados finalmente se revelam, não trazem melodia no sentido tradicional, mas temperatura emocional: esfriam o ambiente, expandem o espaço e aprofundam o caráter ritualístico da composição. Este transe vai, gradualmente, se expandindo, quando a música se transforma em uma besta veloz, fazendo uma ode aos áureos primórdios do metal negro.
O encerramento acústico não soa como contraste, mas como consequência natural. É o momento em que o som se recolhe, deixando apenas o eco da travessia por vales inatingíveis. Neste momento, nem percebemos que atravessamos quase treze minutos beirando a loucura existencialista.
Mais dinâmica e instável, “Turning the Blind Eye” é a faixa onde a LIKNO demonstra maior domínio narrativo. A música se move em blocos bem definidos, alternando momentos de agressão direta com passagens de contemplação sombria. O riff principal carrega uma melancolia amarga, quase épica, mas nunca grandiosa: tudo aqui permanece contido, controlado, sufocado. Como o peso da existência em uma maldita sociedade dogmática.
A bateria assume papel central na condução das mudanças de clima, reforçando a sensação de marcha inexorável. As guitarras, por sua vez, escondem melodias sob camadas de frieza, convidando o ouvinte a mergulhar profundamente em seu vazio em vez de apenas escutar. Impossível não se admirar com as diversas alternâncias sonoras nesta faixa, mostrando que o duo possui extremo requinte ao compor.
O clímax final não explode; se impõe. Cresce lentamente, como uma certeza desconfortável que se instala e se recusa a ir embora.
Encerrando o álbum, "Telma" rompe com o formato black metal e mergulha de vez no ambient. Aqui não há riffs, nem vocais, nem estrutura tradicional, apenas camadas sonoras que se movem lentamente, criando uma paisagem introspectiva e profundamente solitária.
Teclados etéreos, texturas prolongadas e uma sensação constante de deslocamento fazem desta faixa menos uma “música” e mais um estado. É um final coerente e necessário: depois da tensão e do peso das composições anteriores, a LIKNO escolhe o silêncio expandido como conclusão, recriando momentos ímpares que fizeram parte do Black Metal nos anos 90.
“Summit and Trench” é um disco que aposta tudo na coesão atmosférica. Com apenas três faixas longas, a banda elimina o supérfluo (tão presente em discos extremamente longos que se tornam cansativos no decorrer das audições) e concentra sua força criativa em composições que respiram lentamente, recompensando o ouvinte que realmente aprecia o estilo. A frieza é intencional, a repetição é ferramenta, e o minimalismo não é limitação: é linguagem.
Mais do que um segundo álbum sólido, este trabalho soa como uma afirmação de identidade. A dupla não busca apenas recriar estilos já estabelecidos, mas reafirmar sua capacidade de ser profunda, introspectiva e emocionalmente devastadora sem precisar de excessos.
Um disco para ser vivido em isolamento, longe de distrações, onde cada audição revela novas camadas escondidas sob a superfície congelada. Um disco que até pode ser consumido em streamings, mas fará muito mais sentido se ouvido no formato físico, como deve ser.
EM POUCAS PALAVRAS:
DESTAQUES:
Impossível mencionar apenas um destaque, pois “Summit and Trench” exala o que de melhor o Black Metal possui. Suas três faixas conseguem ser tão distantes, tão variadas, tão refinadas que se interligam naturalmente.
PONTOS DE ATENÇÃO:
Este não é um disco indicado para aquele que associa o Black Metal a música apenas ou a melodias de fácil assimilação. Este é um disco que mergulha profundamente na desolação humana e isso pode restringir a base de ouvintes.
EXTRA-MÚSICA:
Vale conferir o vídeo promocional realizado pela gravadora WolfKult Religion para divulgação do álbum. O vídeo se constrói a partir de cenários desoladores, tratados de forma monocromática que sintetizam muito bem a atmosfera do disco. Assista!
VALE A PENA?
Sim, desde que você esteja disposto a atravessá-lo.
“Summit and Trench” não é um álbum feito para escutas casuais ou consumo distraído. Ele exige tempo, introspecção e uma disposição real para habitar atmosferas frias, repetitivas e emocionalmente densas. Para quem busca no black metal apenas impacto imediato ou variedade constante, o disco pode soar austero demais.
Mas para o ouvinte que valoriza imersão, coerência estética e narrativas construídas pela atmosfera maldita, a LIKNO entrega uma experiência rara. Cada faixa funciona como parte de um mesmo ritual, e o conjunto recompensa quem aceita caminhar sem pressa, observando as sutis transformações ao longo do percurso. Sem dúvidas, este é um álbum austero, denso e profundamente envolvente.
9.0/10
(Daniel Aghehost)
TRACK LIST
1. From Summit to Trench
2. Turning the Blind Eye
3. Telma