MENU
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: AETERNUM MAUSOLEUM - Ecos do Panteão (2026 - Brazilian Ritual Records)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 29/05/2026 19:00 • Atualizado 29/05/2026 19:08
Resenhas

AETERNUM MAUSOLEUMEcos do Panteão

Brasil | Black Metal

Brazilian Ritual Records | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO:

Douglas Brito

Felipe Brito

Fernando Iser

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

 

O debut da horda AETERNUM MAUSOLEUM soa como uma verdadeira invocação às raízes mais obscuras do Em tempos onde boa parte das bandas parece obcecada por técnica excessiva, produções esterilizadas e pela necessidade constante de apresentar algo "novo", a AETERNUM MAUSOLEUM escolhe caminhar pelo caminho oposto. "Ecos do Panteão" (lançado oficialmente no dia 2 de maio pela gravadora Brazilian Ritual Records) é uma oferenda aos espíritos que ajudaram a erguer os pilares do black/death metal helênico, um trabalho construído com respeito absoluto à tradição e profunda compreensão daquilo que tornou a cena grega uma das mais singulares da história do metal extremo.

Desde os primeiros acordes de "Érebos", o álbum transporta o ouvinte para um universo de templos em ruínas, mitologia ancestral e ocultismo. Os riffs carregam aquele peso austero e contemplativo que sempre diferenciou as hordas gregas de seus contemporâneos escandinavos, enquanto a produção preserva uma organicidade rara nos dias atuais. Nada soa artificial. Nada parece calculado para agradar algoritmos ou tendências passageiras. Aqui existe apenas atmosfera, devoção e escuridão.

Um dos momentos mais velozes surge em "Suprema Nereide Atlântica", que apresenta uma das faces mais agressivas de "Ecos do Panteão". Os riffs velozes injetam uma energia quase avassaladora na composição, mas o grande diferencial da faixa está na forma como a banda equilibra essa intensidade com uma atmosfera profundamente evocativa. Quando os teclados surgem, o cenário se transforma completamente, transportando o ouvinte para aqueles abismos sonoros que marcaram alguns dos momentos mais memoráveis do metal extremo dos anos 90. A combinação entre a identidade já característica da lendária MAUSOLEUM, os andamentos médios cuidadosamente inseridos ao longo da composição, os vocais carregados de autoridade e as melodias inspiradas na tradição mais nobre do metal cria uma experiência envolvente do início ao fim. É uma faixa que demonstra não apenas a capacidade da banda de construir peso e agressividade, mas também sua habilidade em compor atmosferas marcantes sem perder a força dos riffs. Um dos pontos mais altos de todo o álbum.

Em "Noctara", a repetição dos riffs deixa de ser apenas um recurso de composição e passa a desempenhar um papel fundamental na construção da atmosfera. A cada retorno dos temas principais, a música parece afundar ainda mais o ouvinte em seu próprio universo sombrio, criando uma sensação quase hipnótica que remete aos momentos mais inspirados da velha escola helênica. Os corais tenebrosos surgem como verdadeiros arautos da desesperança, ampliando a carga emocional da faixa sem jamais soar exagerados, enquanto as guitarras conduzem tudo com riffs cadenciados e carregados de personalidade. Mas é na reta final que "Noctara" se torna realmente inesquecível. O solo aparece no momento exato, acrescentando melancolia e profundidade a uma composição que já beira a perfeição, e a declamação que encerra a faixa funciona como o último capítulo de um ritual cuidadosamente conduzido desde os primeiros acordes. Daquelas músicas que terminam deixando um vazio imediato, como se qualquer faixa que viesse depois tivesse a difícil missão de sustentar o mesmo nível de encantamento.

Existe algo especialmente fascinante em ouvir toda essa atmosfera de mitologia, ocultismo e ancestralidade sendo conduzida em português. Em "Ecos do Panteão", os vocais não apenas narram histórias sobre deuses, sombras e lendas antigas, mas aproximam esse universo do ouvinte de uma forma muito particular. Acostumados a consumir esse tipo de temática quase sempre em inglês ou em idiomas europeus, há uma emoção difícil de explicar quando essas imagens ganham vida em nossa própria língua. O resultado é uma conexão mais íntima com as composições, como se os ecos dessas antigas divindades encontrassem um novo caminho para se manifestar através da voz de músicos brasileiros apaixonados pela tradição do metal extremo.

"Ode Helênica" surge como uma verdadeira declaração de princípios. Mais do que uma homenagem, a faixa transmite a sensação de ter sido concebida por músicos que compreendem profundamente a essência desse legado. Existe autenticidade em cada passagem. Não soa como nostalgia fabricada ou mera reprodução de fórmulas consagradas, mas como a continuação natural de uma chama que permanece acesa há décadas no underground.

A incursão pelo universo de Conan em "Olhos de Serpente" (Thulsa Doom) funciona de maneira absolutamente brilhante dentro da proposta de "Ecos do Panteão". Existe algo de profundamente envolvente na forma como os teclados abrem caminho para riffs inspiradíssimos, criando uma atmosfera que parece arrancada diretamente das páginas de uma antiga saga de espada e feitiçaria. Os vocais conduzem essa jornada com convicção, dando vida a cenários, personagens e sombras que habitam o imaginário de gerações de amantes da fantasia épica. Mas o que realmente me conquistou foi a forma como a música cresce ao longo de sua execução. Quando o andamento se transforma e a faixa caminha para seu desfecho épico, tudo parece alcançar uma dimensão ainda maior. As guitarras assumem o protagonismo com enorme naturalidade, e cada músico encontra seu espaço sem jamais comprometer a força do conjunto. É impossível não se deixar levar por esse momento. Fernando Iser, Felipe Brito e Douglas Brito demonstram uma sintonia que vai muito além da simples execução técnica; existe uma conexão genuína entre as ideias, os arranjos e a atmosfera que desejam transmitir. O resultado é uma faixa que não apenas homenageia um universo tão querido por muitos de nós, mas que também desperta aquela rara sensação de encantamento que nos faz lembrar por que nos apaixonamos pelo metal extremo tantos anos atrás.

Um dos momentos mais marcantes do álbum surge em “Rei das Sombras”. Sustentada por riffs hipnóticos e extremamente memoráveis, a faixa parece encontrar um ponto de equilíbrio perfeito entre a identidade da AETERNUM MAUSOLEUM e a herança deixada pelos grandes nomes do metal helênico. Existe algo de profundamente familiar aqui, como se cada passagem carregasse ecos de décadas de underground sem jamais soar como mera reprodução de fórmulas consagradas. As guitarras conduzem a música por um caminho soturno e envolvente, evocando algumas das melhores características da escola grega: peso, atmosfera e uma capacidade quase ritualística de prender o ouvinte dentro dos riffs. Mais do que uma simples homenagem, a música transmite a sensação de um tributo sincero a toda uma trajetória construída na resistência, na devoção e na paixão pelo metal extremo. Daquelas faixas que terminam e imediatamente despertam a vontade de apertar o play novamente.

"Prometheus Anthropos" é simplesmente um daqueles momentos em que tudo parece se alinhar de forma perfeita. A faixa reúne alguns dos elementos mais marcantes de "Ecos do Panteão" e os transforma em uma composição carregada de personalidade e emoção. Em meio às densas camadas de escuridão surgem melodias épicas na medida certa, conduzidas por riffs que demonstram uma devoção absoluta à tradição helênica. Os solos acrescentam ainda mais brilho à composição, aparecendo nos momentos certos e ampliando essa sensação de grandiosidade que acompanha toda a música. Os vocais, por sua vez, evocam antigos mitos e lendas com uma naturalidade impressionante, reforçando o caráter quase ritualístico da faixa. E quanto mais a música avança, mais ela transmite aquela sensação rara de estar diante de algo especial. É impossível ouvi-la sem imaginar o impacto que teria ao vivo, com o público acompanhando cada passagem e absorvendo toda a força de sua atmosfera. A AETERNUM MAUSOLEUM acerta em cheio aqui, entregando uma composição que permanece ecoando na memória muito depois do seu encerramento e que, sem dúvida alguma, figura entre os pontos mais altos de todo o álbum.

O encerramento com "Funeral Maldito" é muito mais do que uma simples releitura. Trata-se de uma reverência apaixonada a uma das obras mais importantes de toda a história do metal helênico. Ao transportar "Unholy Funeral", clássico absoluto de "His Majesty at the Swamp", para a língua portuguesa, a AETERNUM MAUSOLEUM assume uma enorme responsabilidade e a honra com uma convicção admirável. Tudo aquilo que tornou a composição original tão marcante permanece intacto: os riffs sombrios e carregados de personalidade, a atmosfera majestosa, a sensação constante de estar diante de algo ancestral e os vocais que transformam cada verso em uma verdadeira invocação. Ouvir essa letra ecoando em português provoca um impacto difícil de descrever para quem cresceu admirando a cena grega e suas obras fundamentais. Mais do que prestar tributo à VARATHRON, a banda demonstra profundo entendimento da importância histórica desse legado e da influência que ele exerceu sobre sua própria identidade musical. Existe respeito em cada nota, mas também existe pertencimento. "Funeral Maldito" não soa como uma homenagem protocolar; soa como o encontro entre discípulos e mestres separados por décadas, mas unidos pela mesma devoção à escuridão, à atmosfera e à tradição. Quando seus acordes finais desaparecem, fica a sensação de ter testemunhado não apenas o encerramento de um álbum, mas a celebração de uma herança que continua viva e pulsante dentro do underground.

A produção evita todos os excessos modernos que poderiam comprometer a proposta. O som permanece áspero, profundo e orgânico, enquanto a arte assinada por Panos Sounas complementa perfeitamente a identidade visual e conceitual do álbum.

"Ecos do Panteão" não foi criado para quem procura inovação a qualquer custo. Este é um disco destinado àqueles que ainda enxergam o black metal como uma manifestação de atmosfera, identidade e devoção. Um álbum que honra uma tradição sem transformá-la em caricatura, e que encontra sua força justamente na sinceridade com que reverencia os antigos caminhos. Para os verdadeiros cultuadores do metal helênico, trata-se de uma audição obrigatória.

OBS: Esta resenha foi baseada na versão digital de "Ecos do Panteão". A versão em CD contém duas faixas a mais: "Sede de Vingança" e uma cover da banda NEBIROS (a faixa "Nebiros").

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

""Olhos de Serpente" (Thulsa Doom) ", "Noctara", "Prometheus Anthropos" e "Funeral Maldito"

 

9.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

 

Comentários
Comentário enviado com sucesso!