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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: DOWNFALL OF NUR – And The Firmament Will Burn To Quench The Pain Of This Earth (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 11/06/2026 08:52
Resenhas

DOWNFALL OF NUR – And The Firmament Will Burn To Quench The Pain Of This Earth

Argentina | Atmospheric Black Metal

Avantgarde Music | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO:

Antonio Sanna - Vocals, Guitars, Bass, Keyboards

 

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Alguns discos voltam depois de muitos anos tentando recuperar exatamente o ponto onde pararam. Outros retornam como se o tempo tivesse continuado correndo em silêncio. O novo trabalho da DOWNFALL OF NUR parece pertencer ao segundo grupo.

Mais de uma década separa este álbum de “Umbras de Barbagia”, mas em nenhum momento existe sensação de retorno nostálgico ou tentativa de repetir uma fórmula que deu certo. “And the Firmament Will Burn to Quench the Pain of this Earth” soa como continuação de um caminho que nunca deixou realmente de existir, apenas ficou sendo construído longe dos olhos.

E talvez o que mais impressione aqui não seja o tamanho do disco, nem suas estruturas extensas. É o peso emocional que Antonio Sanna consegue sustentar durante praticamente toda a experiência.

Desde o início em  “Disamistade I”, tudo parece acontecer como preparação para alguma travessia difícil. Os sinos distantes, o mantra entoado de forma quase sussurada e aquela sensação estranha de espaço vazio criam algo que vai muito além de introdução. Existe uma tensão silenciosa sendo construída ali. Uma sensação de que entrar neste disco significa deixar alguma coisa para trás.

Quando “Beyond the Transcendent Darkness” finalmente chega, o impacto é enorme. Não porque a música acelera, isso seria pouco para descrever o que acontece aqui. Existe um crescimento constante, como se cada camada instrumental estivesse empurrando a composição para um lugar emocionalmente cada vez mais desconfortável. Os riffs carregam peso, mas nunca funcionam sozinhos. Violinos aparecem como lamento. Os teclados parecem ampliar o espaço em volta da dor. As guitarras conduzem o ouvinte para locais cada vez mais inacessíveis, onde a sanidade é testada perante o obscuro do ser. E os vocais não conduzem a narrativa tanto quanto parecem emergir dela. Uma intensa viagem que será verdadeiramente cruzada apenas por quem mergulhar por completo.

“Underground Halls of the Oldest Goddess Stronghold” acaba sendo um dos momentos mais fortes do álbum justamente porque abandona qualquer pressa. Existe algo quase ritualístico na forma como a música avança. As explosões de black metal nunca soam libertadoras. Pelo contrário, parecem aprofundar ainda mais a sensação de estar descendo para algum lugar antigo demais para ser compreendido completamente. E quando surgem as passagens faladas mais adiante, tudo ganha um peso estranho, como se estivéssemos ouvindo memórias atravessando séculos.

As partes atmosféricas espalhadas pelo disco também merecem atenção especial porque não estão ali apenas para criar ambiente. “Disamistade II” talvez seja o melhor exemplo disso. O canto feminino que surge aqui não parece interessado em transmitir palavras com clareza. Funciona quase como memória, como tradição distante ou como alguma forma de lamento ancestral que continua existindo mesmo sem precisar ser completamente compreendido. Existe uma beleza muito difícil de explicar nessa faixa. Ela acalma e inquieta ao mesmo tempo.

Já “The Great Escape” não entrega qualquer sensação real de alívio. Existe uma ambiência etérea que, por momentos, parece flertar com algum estado de supraconsciência cósmica, como se finalmente houvesse espaço para respirar depois de tanta densidade. Mas essa impressão dura pouco. O conforto nunca chega. Quando a instrumentação cresce, anunciando a faixa título, o que surge não é libertação, e sim uma mistura estranha de vazio, desesperança e agonia silenciosa. É uma faixa que parece suspensa entre contemplação e colapso, dessas que pedem atenção total e recompensam cada minuto dedicado a elas. As estruturas mais abertas, o crescimento lento e aquele trabalho de guitarras que insiste em retornar criam alguns dos momentos mais emocionantes do álbum. Existe um trecho específico em que tudo desacelera e os violinos assumem o centro da música enquanto o restante parece desaparecer aos poucos. É difícil não sentir que algo está sendo perdido ali.

Depois de tantas explosões emocionais, chega “Deliverance”. Talvez a decisão mais ousada de todo o disco, Antonio escolhe encerrar com mais de vinte minutos praticamente entregues à atmosfera, aos drones e à tensão. Não existe catarse. Não existe recompensa fácil. A música parece permanecer suspensa num lugar estranho entre contemplação e desconforto. E justamente por isso funciona tão bem como encerramento.

O mais impressionante em “And the Firmament Will Burn to Quench the Pain of this Earth” é perceber que, mesmo soando maior e mais ambicioso que o debut, a DOWNFALL OF NUR continua profundamente humana. Nada aqui parece grandioso por vaidade. Tudo existe porque precisa existir.

Não é um disco para consumo rápido. Também não parece interessado em ser imediatamente amado. Ele pede tempo.

E devolve algo que continua ecoando muito depois do silêncio.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Underground Halls of the Oldest Goddess Stronghold”, “Disamistade II” e “And the Firmament Will Burn to Quench the Pain of this Earth”

 

9.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

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