COLDWINTER – Where Memories Drowning
Brasil | Raw Black Metal
C.W.Music Records | Clique aqui e garanta sua cópia
2026
FORMAÇÃO
Alessandro - Vocals (lead)
Gustavo Grando - Vocals
Limac - Guitars, Bass, Keyboards
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Existe uma tristeza profundamente silenciosa atravessando “Where Memories Drowning” (lançado oficialmente no dia 10 de fevereiro). Não aquela melancolia explosiva ou teatral que muitas bandas do doom atmosférico tentam construir, mas algo muito mais lento, sufocante e emocionalmente desgastado. A COLDWINTER transforma este álbum em uma verdadeira cerimônia de luto em câmera lenta.
Desde os primeiros minutos de "Everlasting Pain", o álbum encontra um de seus momentos mais inspirados. A banda conduz o ouvinte para um ambiente frio, enevoado e profundamente contemplativo, onde os riffs caminham sem pressa enquanto teclados e delicadas intervenções de piano ampliam a sensação de vazio que paira sobre toda a composição. Não há qualquer esforço em parecer grandiosa; a música simplesmente cresce de forma natural, como se cada acorde encontrasse exatamente o lugar onde sempre deveria estar.
A participação de Jéssica Gartz e Fábio de Paula (HELLLIGHT) acrescenta uma delicadeza rara ao conjunto, fazendo da melancolia algo quase belo de contemplar. Os riffs desenham paisagens desoladas que lembram por que o doom metal continua sendo capaz de emocionar sem recorrer ao excesso. Tudo permanece suspenso entre memória, ausência e resignação, como se a música recusasse qualquer resolução. Há uma beleza silenciosa em "Everlasting Pain". Daquelas que não se impõem ao ouvinte, mas permanecem nele muito depois que o último acorde desaparece.
Se alguém imaginava que o disco faria alguma concessão depois de "Everlasting Pain", "I Tried to Forget You" e "A Life That Is Gone" tratam logo de desfazer o mal-entendido. O peso continua ali, espesso como neblina em manhã de inverno, mas nunca sufoca completamente a música.
Pequenas camadas atmosféricas aparecem na medida certa, abrindo espaço para que o silêncio também participe da composição. Limac demonstra um cuidado admirável na construção dos riffs, conduzindo a banda por caminhos cada vez mais densos sem cair na tentação de repetir fórmulas. Já Gustavo Grando e Alessandro Paiz entendem perfeitamente o papel que lhes cabe: ora despejam guturais profundos, ora surgem como vozes distantes, quase etéreas, carregando uma melancolia que soa menos interpretada do que vivida.
Em "Just Memories", os riffs avançam lentamente, como se carregassem o peso de lembranças que se recusam a desaparecer. A aproximação com o funeral doom surge de forma natural, sustentada por uma alternância vocal que amplia a profundidade emocional da composição sem jamais soar artificial.
A banda demonstra maturidade ao permitir que cada melodia encontre seu próprio tempo, fazendo da lentidão um elemento expressivo e não apenas estético. Há uma tristeza que percorre toda a faixa, mas ela nunca se rende ao desespero fácil. Pelo contrário: transforma a desesperança em algo de rara beleza, como se a música descobrisse que até as lembranças mais dolorosas ainda fossem capazes de florescer em silêncio. Merece sua cuidada atenção!
Se existe um lugar onde o disco revela sua alma, ele talvez esteja na sequência formada por "Void of the Silence" e "I Buried Your Heart". Em "Void of the Silence", a música parece abandonar qualquer preocupação com estrutura e simplesmente respirar. As notas surgem espaçadas, envoltas por reverberações frias, enquanto um delicado arranjo de cordas desenha uma paisagem antiga, quase medieval, de beleza melancólica.
Foi impossível não permanecer completamente absorvido por esse momento. As cordas conduzem a faixa com uma delicadeza quase litúrgica, até que a voz de Agnes Rodrigues surge com uma força comovente. Sua interpretação possui uma intensidade rara: não disputa espaço com os instrumentos, mas cresce junto deles, transformando a melancolia em algo quase palpável. É daqueles instantes em que deixamos de analisar a música e simplesmente nos rendemos a ela.
Quando a faixa termina, já estamos completamente submersos no vasto oceano emocional de “Where Memories Drowning”, sem qualquer vontade de voltar à superfície.
"I Buried Your Heart" foi, para mim, um dos grandes destaques deste álbum. A música nasce quase em silêncio, sustentada por uma declamação delicadamente envolvida pelos teclados, como quem reúne coragem para dizer algo que permaneceu guardado por tempo demais. Aos poucos, tudo cresce. Não de maneira abrupta, mas com a paciência das coisas que sabem exatamente o momento de acontecer. Quando as guitarras finalmente devolvem o peso à composição, ele não chega como violência gratuita, e sim como uma dor antiga que já não encontra forças para permanecer escondida.
Mais uma vez, Agnes Rodrigues surge com uma interpretação capaz de transformar essa travessia em algo profundamente humano. Sua voz não paira sobre a música; ela se entrelaça aos riffs, às camadas de teclados e à pulsação precisa da bateria, fazendo com que cada mudança de dinâmica pareça inevitável. Foi impossível não permanecer completamente preso a esse movimento constante entre delicadeza e devastação.
Confesso que há muito tempo o doom metal já não me provocava essa sensação. Poucas bandas ainda conseguem construir atmosferas verdadeiramente desoladoras sem recorrer ao excesso ou à repetição. Aqui acontece justamente o contrário. Cada passagem encontra seu lugar, cada mudança de andamento renova a escuta, e os vocais extremos, ao contrastarem com a delicadeza dos arranjos, tornam a melancolia ainda mais intensa.
"I Buried Your Heart" não foi apenas a faixa que mais me impressionou; foi aquela que me lembrou por que um dia me apaixonei pelo doom metal.
O trabalho instrumental merece muitos elogios. Elvis Limac constrói guitarras enormes, frias e arrastadas, utilizando timbres propositalmente ásperos e analógicos que reforçam a sensação de degradação emocional constante. Já Simon mantém uma bateria extremamente precisa, pesada e ritualística, funcionando muito mais como pulsação emocional do que como elemento agressivo.
"A Meeting in a Dream" prolonga o estado de contemplação construído pelo álbum com uma delicadeza que impressiona. A linha de teclados conduz a música como um fio invisível, levando o ouvinte cada vez mais fundo nesse universo de silêncio, memória e melancolia. Tudo acontece sem pressa.
A composição cresce com a naturalidade das coisas que obedecem ao próprio tempo, sem recorrer a explosões artificiais ou mudanças que rompam o encanto. Pelo contrário: cada nova camada apenas aprofunda a travessia. Quando a faixa chega ao fim, a sensação é de que o disco já deixou de ser apenas ouvido para passar a ser habitado. Poucos trabalhos recentes conseguem envolver o ouvinte com tamanha delicadeza, fazendo de “Where Memories Drowning” uma das experiências mais marcantes de 2026.
A escolha por "Tears of Sorrow", da banda israelense NEVAIN, despertou imediatamente minha curiosidade. Eu não conhecia a composição original e, talvez justamente por isso, interrompi a audição do álbum por alguns minutos para encontrá-la. Foi uma pausa que valeu a pena.
Ao retornar, ficou evidente o cuidado com que a banda tratou essa homenagem. Em vez de reconstruir a música à sua maneira ou buscar protagonismo sobre a obra original, preferiu preservar sua essência, acrescentando apenas nuances suficientes para que ela dialogasse naturalmente com a identidade do disco. Agora, o que me chamou ainda mais atenção é que a COLDWINTER acrescentou letras à esta cover (já que a NEVAIN é uma banda instrumental). Fiquei ainda mais curioso para conferir a letra criada para esta versão. O resultado é daqueles raros momentos em que um cover deixa de ser apenas uma reverência e passa a funcionar como parte orgânica do próprio disco, despertando, ao mesmo tempo, a vontade de conhecer mais profundamente o trabalho da banda homenageada.
Existe também um enorme cuidado atmosférico em toda a produção. O álbum soa amplo, cinematográfico e profundamente vazio ao mesmo tempo, como se cada instrumento estivesse ecoando dentro de uma catedral abandonada.
"No Hope, No Life" encerra o álbum como quem fecha lentamente uma porta atrás de si, sem pressa, mas com a certeza de que nada será exatamente igual depois. Os vocais rasgados atravessam a delicadeza das melodias sem destruí-la; pelo contrário, fazem com que ela brilhe ainda mais.
Há um contraste permanente entre violência e contemplação, entre peso e beleza, como se a banda soubesse que a escuridão nunca existe sozinha: ela precisa da luz para revelar sua profundidade. Quando a última nota desaparece, fica a impressão de que todas as paisagens percorridas ao longo do disco convergem para esse instante final.
Um encerramento que não busca o impacto pelo excesso, mas pela delicada maneira como transforma melancolia em permanência.
“Where Memories Drowning” definitivamente não é um disco para ouvir casualmente. Sua lentidão, densidade emocional e proposta extremamente contemplativa exigem paciência e entrega total do ouvinte. Mas para quem aceita mergulhar nesse ritual de luto e memória, o álbum recompensa com uma experiência profundamente sincera e emocionalmente pesada.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Everlasting Pain”, “Void of the Silence”, “I Buried Your Heart”, “No Hope, No Life”
9.0/10
(Daniel Aghehost)