HULDER – Verbolgen
ESTADOS UNIDOS | Black Metal
20 Buck Spin |
2026
FORMAÇÃO
Hulder - Vocals, Guitars
Necreon - Bass, Vocals
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
A trajetória da HULDER sempre esteve associada a uma interpretação bastante particular do black metal tradicional. Desde suas primeiras gravações, a banda demonstrou interesse pela aspereza das produções dos anos 90, pelo caráter ritualístico das composições e por uma atmosfera medieval que se desenvolvia sem comprometer a agressividade instrumental. Essa combinação ganhou consistência ao longo dos lançamentos seguintes, especialmente em “Verses in Oath”, de 2024, álbum que consolidou sua posição entre os nomes mais interessantes do black metal norte-americano contemporâneo.
Com “Verbolgen”, seu terceiro trabalho de estúdio, a HULDER apresenta uma transformação importante na maneira de desenvolver essas características. A música permanece firmemente vinculada ao black metal, mas as composições adquirem maior amplitude, concedendo espaço a melodias elaboradas, passagens acústicas, teclados e vocais limpos. São elementos que já encontravam lugar no repertório anterior, mas que agora participam mais diretamente da construção das músicas, modificando sua dinâmica e ampliando suas possibilidades expressivas.
A influência do black metal escandinavo continua evidente. As guitarras preservam o ataque cortante dos tremolos, a bateria mantém a intensidade característica do estilo e as melodias frequentemente evocam a atmosfera austera de gravações dos anos 90. Entretanto, “Verbolgen” também encontra inspiração na dimensão épica de BATHORY e na combinação de peso, melancolia e solenidade desenvolvida pela AETERNUS em seus primeiros trabalhos. Essas referências ajudam a compreender a direção escolhida pela banda, embora o resultado apresente características suficientemente definidas para não depender exclusivamente delas.
A introdução “Drie Raven” estabelece imediatamente essa mudança de perspectiva. Construída a partir de instrumentos acústicos, flauta e percussão, a faixa recupera uma atmosfera medieval com notável sobriedade. Seu arranjo evita a exuberância frequentemente associada ao folk metal, privilegiando uma sensação de antiguidade e recolhimento que prepara o terreno para “The Crowning”.
É nessa segunda composição que o álbum começa a revelar suas maiores ambições. As guitarras em tremolo e os vocais rasgados preservam o caráter agressivo da HULDER, mas a música se desenvolve por meio de sucessivas camadas melódicas, intervenções discretas de teclados e passagens vocais limpas que acrescentam solenidade ao conjunto. O interesse está na maneira como esses recursos convivem com os elementos mais tradicionais do black metal. A composição apresenta mudanças de intensidade cuidadosamente articuladas, sem permitir que a riqueza dos arranjos comprometa sua força.
“The Crowning” também estabelece uma característica que se repetirá ao longo do disco: a capacidade de sustentar atmosferas extensas sem depender permanentemente da velocidade. Os arranjos apresentam maior profundidade, enquanto as transições entre os diferentes momentos das composições recebem uma atenção que nem sempre estava presente nos primeiros registros da banda.
Essa abordagem encontra continuidade em “Thy Binding Oath”, uma das faixas que melhor evidenciam a proximidade com a tradição do dark metal. O andamento predominantemente cadenciado, os riffs densos e as intervenções vocais de caráter épico aproximam sua sonoridade dos primeiros trabalhos da AETERNUS. A agressividade permanece presente, mas é administrada com maior contenção, permitindo que as guitarras construam tensão por meio de melodias prolongadas e alterações graduais de intensidade.
A faixa-título estabelece um contraste necessário com essa orientação mais solene. Curta, veloz e agressiva, “Verbolgen” recupera o aspecto mais direto da linguagem da HULDER. A bateria assume uma postura impetuosa, os riffs apresentam uma movimentação quase galopante e os vocais rasgados dominam a composição. Sua presença impede que o álbum permaneça excessivamente concentrado em atmosferas cerimoniais, demonstrando que a ampliação dos recursos musicais não diminuiu a capacidade da banda de produzir black metal feroz e convincente.
Em “…And We Shall Sing”, essa agressividade encontra uma das interpretações mais interessantes do repertório. A composição apresenta riffs de caráter marcial e uma construção melódica que remete à fase mais épica de BATHORY. Entretanto, a referência aparece principalmente na maneira como a música organiza seus movimentos: a progressão instrumental é sustentada por mudanças graduais de andamento, enquanto as guitarras desenvolvem melodias que ampliam a sensação de grandeza sem recorrer a arranjos excessivamente ornamentados.
O resultado está entre os momentos mais expressivos de “Verbolgen”. Existe uma compreensão bastante precisa de como produzir intensidade sem recorrer exclusivamente à velocidade ou à sobreposição constante de instrumentos. A música alterna força e contenção com naturalidade, preservando uma atmosfera austera mesmo em suas passagens mais expansivas.
Outro destaque é “In Blood and In Earth”, composição com pouco mais de sete minutos que representa uma das experiências mais elaboradas do álbum. Sua introdução acústica estabelece uma ambientação contemplativa, posteriormente incorporada ao desenvolvimento das guitarras distorcidas. A passagem entre esses dois momentos ocorre de maneira progressiva, evitando a sensação de que a abertura serve apenas como preparação para a parte pesada.
A composição ganha intensidade gradualmente, acrescentando novas camadas instrumentais e explorando diferentes relações entre melodia, peso e atmosfera. É justamente nessa construção paciente que se percebe um dos avanços mais significativos da HULDER. A banda demonstra maior domínio das estruturas longas, permitindo que cada passagem encontre uma função dentro do desenvolvimento musical. Apesar de sua duração, “In Blood and In Earth” preserva o interesse por meio de alterações consistentes em sua dinâmica.
A sequência prossegue com “Den Nacht Zijn Lied”, que recupera uma orientação mais agressiva sem abandonar a elaboração melódica. As guitarras assumem especial importância, sobretudo pelas linhas que se desenvolvem acima da base rítmica e pelos leads que acrescentam novas possibilidades à composição. Em determinados momentos, a aproximação com o black/death melódico torna-se perceptível, embora a sonoridade mantenha a aspereza e a atmosfera arcaica que caracterizam o álbum.
“View From Nemeton”, por sua vez, reúne boa parte dos recursos explorados ao longo do repertório. Andamentos marciais, ataques velozes, melodias de guitarra, vocais limpos e intervenções de teclados aparecem organizados em uma composição de caráter expansivo. A alternância entre passagens agressivas e momentos atmosféricos acontece com segurança, demonstrando uma preocupação maior com a continuidade musical. A faixa possui uma construção elaborada, mas preserva a tensão necessária para que suas mudanças não comprometam a unidade do conjunto.
O encerramento fica a cargo de “The Glow of Dawn”, instrumental contemplativa que substitui a agressividade por sintetizadores e melodias melancólicas. A escolha funciona particularmente bem depois da intensidade de “View From Nemeton”. Em vez de buscar uma conclusão grandiosa, a HULDER encerra o disco com uma atmosfera introspectiva, coerente com o imaginário de ancestralidade, natureza e espiritualidade que atravessa o trabalho.
A ampliação das possibilidades musicais também encontra correspondência na formação responsável pelas gravações. A entrada definitiva de Necreon como parceiro criativo consolida uma colaboração anterior, enquanto a participação de músicos associados a diferentes expressões do metal extremo contribui para a diversidade instrumental. Vrolok, da AETERNUS, divide as responsabilidades pela bateria com Vapula, Keld acrescenta guitarras e teclados, e a flautista Januaria participa da construção das passagens de caráter medieval.
A produção acompanha adequadamente essas escolhas. A mixagem conserva a aspereza necessária ao black metal, mas oferece definição suficiente para que as camadas de guitarra, os teclados e os instrumentos acústicos sejam percebidos com clareza. A bateria mantém impacto e presença, enquanto os vocais ocupam uma posição de destaque sem encobrir os arranjos. O resultado apresenta densidade e riqueza instrumental, preservando a atmosfera sombria que constitui uma das principais características da HULDER.
Apesar de suas qualidades, “Verbolgen” também apresenta limitações. A insistência em determinadas construções solenes faz com que algumas passagens apresentem soluções melódicas semelhantes, reduzindo ocasionalmente o contraste entre as composições. Nem todas as ideias alcançam a expressividade de “The Crowning”, “…And We Shall Sing” ou “In Blood and In Earth”, e a duração de alguns desenvolvimentos poderia ser reduzida sem prejuízo significativo à proposta musical.
Também é necessário reconhecer que os elementos responsáveis por ampliar a sonoridade da HULDER possuem antecedentes bastante conhecidos. A combinação de black metal com melodias épicas, estruturas extensas e instrumentação tradicional foi explorada por diferentes bandas ao longo das últimas décadas. O mérito de “Verbolgen”, portanto, está menos na novidade dos recursos utilizados do que na consistência com que eles são incorporados à linguagem da banda.
Essa distinção é fundamental para avaliar o álbum. Em “Verses in Oath”, a HULDER havia demonstrado pleno domínio de uma identidade musical construída sobre referências tradicionais. Agora, a banda começa a explorar as possibilidades dessa identidade com maior liberdade composicional. As músicas apresentam estruturas mais elaboradas, os momentos atmosféricos recebem maior importância e a agressividade passa a dividir espaço com uma concepção melódica mais abrangente.
A transformação, entretanto, traz consigo uma questão que deverá acompanhar os próximos lançamentos: até que ponto essa ampliação poderá continuar sem comprometer a intensidade e a personalidade que caracterizaram os primeiros trabalhos? Algumas passagens de “Verbolgen” sugerem possibilidades particularmente interessantes, enquanto outras demonstram que a utilização de recursos adicionais nem sempre resulta em composições igualmente memoráveis.
Ainda assim, o saldo é bastante positivo. A HULDER entrega seu trabalho mais ambicioso até o momento, com arranjos mais desenvolvidos e uma compreensão mais sofisticada das relações entre atmosfera, melodia e agressividade. O álbum exige maior atenção do ouvinte, especialmente pela maneira como distribui seus momentos de intensidade, mas recompensa essa dedicação com algumas das composições mais bem construídas de sua discografia.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“The Crowning”, “…And We Shall Sing”, “In Blood and In Earth” e “View From Nemeton”
9.0/10
(Daniel Aghehost)