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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: MORTEM – Morketid (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 02/10/2026 10:05
Resenhas

MORTEM – Morketid

NORUEGA | Black Metal

Peaceville Records | 

2026

 

FORMAÇÃO

Steinar Johnsen - Keyboards

Marius Vold - Vocals

Hellhammer - Drums

Tor Stavenes - Bass

Astennu - Guitars

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Antes que a ARCTURUS levasse o metal extremo norueguês a territórios progressivos, sinfônicos e quase cósmicos, Marius Vold e Steinar “Sverd” Johnsen haviam formado a MORTEM. Era 1989, quando o vocabulário do black metal local ainda não estava plenamente definido e algumas de suas figuras centrais apenas começavam a se encontrar. A demo “Slow Death”, lançada naquele mesmo ano, contou com Euronymous na produção, uma ilustração de Dead na capa e Hellhammer como baterista de sessão. Pouco depois, o grupo interrompeu suas atividades, enquanto seus integrantes passaram a construir trajetórias ligadas a nomes como ARCTURUS, THORNS e MAYHEM.

A MORTEM permaneceu durante décadas como uma nota de rodapé importante na história do metal norueguês, mais lembrada pelas bandas que vieram depois do que por uma discografia própria. Essa condição começou a mudar em 2019, quando “Ravnsvart” finalmente apresentou seu primeiro álbum completo. Em vez de tentar reproduzir a precariedade sonora de “Slow Death”, o trabalho recuperava a brutalidade das origens e a reorganizava por meio de composições mais atmosféricas, arranjos elaborados e uma produção compatível com o presente. Sete anos depois, “Mørketid” aprofunda essa proposta e demonstra que a reativação da banda não se limita a um exercício ocasional de nostalgia.

Lançado em 3 de julho de 2026 pela Peaceville Records, o segundo álbum da MORTEM reúne Marius Vold nos vocais, Sverd nos teclados e na condução das composições, Hellhammer na bateria, Tor R. Stavenes, também conhecido como Seidemann, no baixo, e Jamie Stinson, o Astennu, nas guitarras. Essa formação também é responsável por outros nomes do metal extremo, como ARCTURUS, THORNS, MAYHEM, 1349, THE KOVENANT e DIMMU BORGIR, por exemplo, mas “Mørketid” não deve ser avaliado apenas pela genealogia de seus músicos. A experiência acumulada explica parte da segurança das performances; não substitui, porém, aquilo que realmente importa: a capacidade de transformar referências conhecidas em composições que possuam alguma identidade.

O título pode ser traduzido como “tempo de escuridão” e também designa o período da noite polar, quando o sol permanece abaixo do horizonte durante semanas. Marius Vold amplia essa definição ao associá-la a épocas marcadas por guerras, opressão, medo e incerteza. As letras abordam morte, repressão religiosa, conflitos coletivos e batalhas interiores, sem restringir a escuridão a um período histórico específico. “Mørketid” pode representar o passado, o presente ou um futuro que parece aproximar-se de maneira pouco reconfortante.

A faixa-título começa com uma breve introdução ambiental antes que guitarras, bateria e vocais rompam a contenção inicial. Hellhammer alterna explosões velozes e passagens cadenciadas com a precisão esperada, enquanto a voz áspera de Marius Vold ocupa a gravação como uma presença corrosiva. Os teclados de Sverd surgem imediatamente como parte essencial da composição. Não são acrescentados apenas para aumentar sua grandiosidade, mas criam melodias inquietantes que se movem ao redor dos riffs e modificam a atmosfera produzida pelas guitarras. A música conserva a hostilidade do black metal norueguês, embora sua organização revele uma preocupação muito maior com a dinâmica.

Essa relação entre agressividade e construção atmosférica define boa parte do álbum. A MORTEM utiliza tremolos cortantes, harmonias frias e blast beats associados à segunda onda norueguesa, mas não se submete inteiramente às convenções daquele período. A produção realizada por Børge Finstad e Kevin Kleiven no Toproom Studio deixa os instrumentos perfeitamente audíveis, confere peso ao baixo e permite que os teclados ocupem diferentes planos sem diluir as guitarras. Não existe qualquer tentativa de simular uma gravação deteriorada dos anos 1990. “Mørketid” soa contemporâneo, pesado e detalhado, ainda que conserve uma linguagem profundamente ligada ao passado.

“The Mighty Odious” intensifica a agressividade e oferece uma das atuações mais inquietas de Hellhammer. A bateria não se limita a alternar velocidade e cadência: suas viradas e mudanças de acentuação interferem diretamente no desenvolvimento da música. A faixa poderia cair facilmente em uma sequência convencional de riffs cortantes e vocais ríspidos, mas os teclados introduzem uma sensação de instabilidade que impede essa acomodação. A MORTEM não abandona a tradição; procura criar movimento dentro dela.

“Skyggeånd” é o primeiro grande destaque do álbum. Inspirada por um pesadelo de Marius Vold, a composição aborda o confronto com os próprios demônios e a possibilidade de sucumbir a eles. Seu motivo central, lento, repetitivo e ameaçador, confere peso físico à música, enquanto as acelerações irrompem ao redor dessa estrutura. Ao longo de sete minutos e meio, mudanças de andamento bem distribuídas conduzem a faixa até um trecho intermediário mais sombrio, que funciona como contraponto às passagens velozes. Os teclados de Sverd exercem papel fundamental na criação de ambiências grandiosas e tornam a sonoridade ainda mais encorpada. Próximo ao final, quando baixo e bateria assumem o protagonismo ao lado dos teclados, a MORTEM produz um dos grandes momentos de “Mørketid”. Pela maneira como reúne agressividade, atmosfera e capacidade de composição, “Skyggeånd” é a faixa ideal para apresentar a banda a novos ouvintes. 

“Blodvassen Grunn” preserva a densidade, mas permite que as guitarras assumam contornos mais melódicos. O baixo de Seidemann possui presença significativa na mixagem e reforça o impacto rítmico sem apenas duplicar as guitarras. A faixa encontra um equilíbrio especialmente eficiente entre a ferocidade do conjunto e pequenas aberturas melódicas, oferecendo um contraste que beneficia sua memorização. Quando “Mørketid” se permite abandonar por alguns instantes sua escuridão uniforme, as composições ganham profundidade em vez de perder brutalidade.

A segunda metade começa com “Aftermath”, uma das músicas mais inventivas do repertório. Os riffs iniciais carregam algo da rigidez dissonante da THORNS, com progressões rítmicas fragmentadas que se afastam do tremolo tradicional. Toques de piano produzem uma atmosfera fantasmagórica, quase semelhante a uma caixa de música abandonada, enquanto os solos e algumas escolhas de guitarra aproximam a faixa do heavy metal clássico. Essa combinação não transforma a MORTEM em uma banda progressiva, mas rompe a previsibilidade e mostra quanto o grupo pode ganhar quando permite que seus integrantes avancem para além do formato estabelecido.

“Den Sanne Gud” segue um caminho mais pesado e cadenciado. Seus riffs possuem uma contundência próxima do death metal e, em alguns momentos, evocam a austeridade rítmica da CELTIC FROST. Os teclados aumentam a sensação de confinamento em vez de oferecerem alívio, criando um espaço sonoro sufocante ao redor da voz de Vold. Pequenos recuos de intensidade e intervenções de guitarra sugerem uma direção mais épica, mas a banda interrompe esse movimento antes que ele se torne excessivamente grandioso. É uma das composições em que a experiência dos músicos aparece menos como virtuosismo explícito e mais como domínio de tensão.

“Mørkets Ormebol” retorna à escuridão mais uniforme do álbum. Os teclados desenham linhas sinistras sobre riffs deliberadamente obscuros, enquanto Hellhammer tenta introduzir variações em uma estrutura bastante repetitiva. A atmosfera é eficiente, porém a insistência nos mesmos recursos diminui seu impacto. O problema não está na execução, sempre segura, mas na dificuldade de encontrar um momento que diferencie a música de maneira decisiva. A opção por manter o disco permanentemente mergulhado em tons sombrios garante coerência, mas reduz o contraste e faz com que algumas passagens se confundam.

“Ditt Ødes Ære” encerra o trabalho com maior presença sinfônica e uma escala mais ampla. Os teclados adquirem contornos majestosos sem transformar a faixa em uma reprodução da ARCTURUS ou da DIMMU BORGIR. Guitarras e bateria mantêm o peso, enquanto as camadas melódicas oferecem uma conclusão mais expansiva. Não é uma ruptura em relação ao restante do álbum, mas uma síntese competente de sua proposta: brutalidade, solenidade e uma sensação persistente de ameaça.

Sverd é o elemento que concede personalidade a “Mørketid”. Seus teclados não funcionam como uma parede sinfônica colocada atrás das guitarras nem como um artifício destinado a tornar o black metal artificialmente sofisticado. Em alguns momentos, criam melodias quase sentimentais; em outros, ampliam a estranheza ou tornam o ambiente mais opressivo. Essa ambiguidade remete à ARCTURUS inicial, especialmente à fase anterior a “Aspera Hiems Symfonia”, quando o black metal ainda dividia espaço com uma inclinação progressiva que não havia assumido completamente o controle.

Hellhammer oferece a performance mais dinâmica do disco. Sua bateria determina a arquitetura das músicas, conduz as transições e evita que os andamentos moderados se tornem estáticos. As explosões de velocidade são importantes, mas seu trabalho se revela com maior clareza nas passagens em que altera acentos, preenche espaços ou reorganiza a pulsação dos riffs. Se os teclados estabelecem a identidade atmosférica, a bateria impede que essa atmosfera permaneça imóvel.

Astennu entrega guitarras agressivas e bem definidas, além de solos que ampliam o vocabulário do álbum, principalmente em “Aftermath” e “Den Sanne Gud”. Seidemann recebe espaço suficiente para que o baixo seja sentido como força rítmica própria, algo nem sempre comum nesse tipo de produção. Marius Vold, por sua vez, conserva uma interpretação venenosa e apropriada ao material, embora permaneça preso a uma faixa expressiva relativamente estreita. Sua constância fortalece a unidade do disco, mas também contribui para a sensação de uniformidade que aparece em alguns trechos.

A principal limitação de “Mørketid” está em sua excessiva fidelidade ao próprio ambiente. A MORTEM constrói uma atmosfera densa e ameaçadora, mas por vezes parece receoso de abandoná-la. Alguns riffs permanecem em circulação além do necessário, e a falta de maior variedade vocal ou melódica reduz a individualidade de certas faixas. A produção, embora permita ouvir todos os detalhes, também comprime parte da dinâmica e torna a audição mais cansativa quando as composições insistem nas mesmas tonalidades.

Nada disso impede que “Mørketid” represente uma evolução em relação a “Ravnsvart”. Os arranjos estão mais detalhados, a seção rítmica ganhou maior importância e a interação entre guitarras e teclados tornou-se mais orgânica. Uma característica marcante deste álbum está na maneira como músicos ligados à formação dessa linguagem extrema conseguem revisitá-la sem produzir uma simples réplica arqueológica.

A origem da MORTEM poderia transformar qualquer novo lançamento em objeto de curiosidade histórica. “Mørketid”, felizmente, não precisa dessa indulgência. Mesmo quando se torna repetitivo ou excessivamente apegado à própria escuridão, o disco conserva força, identidade e domínio composicional. Seu melhor resultado aparece quando a tradição deixa de funcionar como limite e se torna matéria para pequenas deformações: o piano espectral de “Aftermath”, a cadência opressiva de “Den Sanne Gud”, as mudanças de andamento de “Skyggeånd” e os teclados que atravessam todo o repertório como uma presença simultaneamente majestosa e perturbadora.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Mørketid”, “Skyggeånd”, “Aftermath” e “Den Sanne Gud”

 

8.5/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

 

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