MENU
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: VÉHÉMENCE – Assiégé pour l'éternité (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 16/10/2026 11:56
Resenhas

VÉHÉMENCE – Assiégé pour l'éternité

França | Epic Black Metal

Antiq Records | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO

KK - Bass

Thomas Leitner - Drums

Tulzcha - Guitars, Keyboards, Fife

Hyvermor - Vocals (lead, choirs), Irish flute
 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Regravar um álbum costuma ser uma decisão ingrata. Quanto mais importante o disco original se torna para quem acompanhou uma banda desde o início, maior o risco de que uma nova versão substitua personalidade por comodidade, espontaneidade por falta de criatividade. Com “Assiégé pour l'Éternité”, porém, a VÉHÉMENCE parece menos interessada em corrigir o que foi feito em 2014 do que em responder a uma questão bem mais interessante: como aquele primeiro conjunto de composições soaria se tivesse sido criado pela banda que existe hoje?

A resposta explica por que este trabalho funciona.

Lançado originalmente em 2014, “Assiégé” nasceu praticamente das mãos de Tulzcha, responsável pelas guitarras, baixo, teclados, programação de bateria e composições, acompanhado por B.R. nos vocais e letras. Doze anos depois, aquela estrutura reaparece ocupada por uma formação completamente diferente: Thomas Leitner na bateria, KK no baixo e Hyvermor nos vocais, coros, flauta irlandesa e saltério, enquanto Tulzcha permanece responsável por guitarras, teclados e pífano. Violino, harpas e flautas adicionais ampliam ainda mais esse lançamento. A mixagem e masterização ficaram novamente a cargo de Stefan Traunmüller. 

Isso muda muita coisa.

“De Célestes Cavalcades” deixa isso evidente rapidamente. A essência melódica continua intacta, mas agora há uma seção rítmica muito mais orgânica sustentando as guitarras. A bateria não funciona apenas como mecanismo de aceleração: ela interfere na dinâmica, conduz mudanças e faz com que os riffs respirem de outra maneira. Os instrumentos tradicionais, por sua vez, não surgem apenas para decorar a ambientação medieval. Eles participam da composição, dobram melodias, respondem às guitarras e ajudam a estabelecer uma identidade que hoje parece completamente natural dentro da música da VÉHÉMENCE. Essa integração entre riff e instrumentação tradicional é uma das diferenças mais perceptíveis na discografia da banda. 

É na faixa-título, contudo, que percebo melhor a diferença entre regravar e reconstruir. “Assiégé pour l'Éternité” passa dos nove minutos, mas a duração não se apoia em repetição atmosférica. Em momento algum senti estes minutos passarem. Os vocais ásperos de Hyvermor funcionam muito bem nesse espaço, carregando uma agressividade que nunca sufoca a riqueza instrumental. A música cresce por sucessivas alterações de intensidade: trechos mais contidos permitem que as linhas melódicas se estabeleçam antes de a bateria ampliar novamente a pressão, enquanto guitarras, vocais e elementos acústicos entram e saem sem romper a continuidade da composição. É uma música longa porque necessita desse espaço, e não porque pretende parecer monumental.

Essa característica atravessa boa parte do álbum. A VÉHÉMENCE escreve peças extensas sem transformá-las em coleções de partes desconectadas. Os temas retornam, são modificados, reaparecem sob outros arranjos e frequentemente assumem funções diferentes. O resultado é uma música que permanece melódica sem perder agressividade e épica sem depender permanentemente de grandiloquência.

“Le Sang Respire Encore” é particularmente importante nesse processo. Musicalmente, ela consegue equilibrar melhor alguns dos elementos que definem o disco: momentos mais melódicos, vozes limpas pontuais, passagens de caráter medieval e ataques mais violentos da bateria. Mas sua importância também está na reconstrução conceitual realizada por Hyvermor. A letra foi ajustada para se integrar à queda do Reino de Arencia e à morte dos quatro herdeiros que interrompem a linhagem do chamado Rei Morto, aproximando definitivamente o antigo “Assiégé” do universo narrativo criado nos trabalhos seguintes.

É justamente aí que “Assiégé pour l'Éternité” deixa de parecer um exercício de nostalgia.

A VÉHÉMENCE não está simplesmente colocando melhores equipamentos sobre ideias antigas. Está fazendo com que aquelas ideias pertençam ao presente da banda.

“En Quête du Graal” talvez seja o melhor exemplo de como isso afeta a própria escrita. Na versão original, era a música mais longa do álbum, ultrapassando os dez minutos. Agora, com 8:54, está mais concentrada, sem passar a sensação de que o excesso foi limado. A velocidade ocupa novamente um papel importante, mas os contrastes são ainda mais decisivos: ataques rápidos cedem espaço a passagens limpas, e um solo de guitarra por volta do terceiro minuto acrescenta um elemento que não estava na gravação original. Não tenho a impressão de estar diante de uma composição abreviada; ao contrário, a sensação é de que a banda entendeu melhor onde aquela música precisava chegar.

“Chant d'Honneur” segue por outro caminho. Aqui, a força está menos na velocidade e mais na construção melódica. Há algo mais solene em sua progressão, e os elementos tradicionais aparecem de forma particularmente bem integrada às guitarras. O caráter medieval se torna particularmente forte, mas nunca escorrega para aquela estética excessivamente fantasiosa que poderia transformar tudo em trilha sonora de batalha. Existe peso suficiente para lembrar que continuamos diante de um álbum de black metal, ao mesmo tempo em que as melodias apontam constantemente para outro lugar. Os vocais de Hyvermor voltam a ocupar papel central, alternando agressividade e dramaticidade com naturalidade e ampliando a força expressiva da composição.

Esse talvez seja um dos maiores méritos de “Assiégé pour l'Éternité”. O medieval não aparece como cenário colocado sobre músicas que poderiam existir sem ele. Está nas escolhas melódicas, nos timbres, nas cadências, nos instrumentos e até na maneira como determinadas linhas de guitarra são construídas. Por isso o disco raramente cai naquela separação previsível entre “parte pesada” e “parte folclórica”.

O encerramento reforça essa ideia. “Par Sombres Forêts et Vastes Plaines” sofreu uma das maiores transformações do álbum: os mais de seis minutos da composição original foram reduzidos a menos de três. Nesta nova forma instrumental, funciona muito melhor como epílogo. Depois de quatro músicas consecutivas próximas ou superiores a oito minutos, prolongar novamente o disco provavelmente enfraqueceria sua conclusão. A opção por condensá-la transforma a faixa em uma saída breve e acústica, quase como uma resolução depois de toda a densidade anterior.

Ainda assim, existe um preço nessa reconstrução.

Parte do encanto de “Assiégé” estava justamente em suas limitações. A bateria programada, a produção mais rudimentar e algumas escolhas pouco refinadas registravam uma banda descobrindo sua própria linguagem. Em “Assiégé pour l'Éternité”, praticamente tudo está mais controlado. Os instrumentos possuem espaço, a seção rítmica ganhou peso e definição, as melodias são mais claras e os arranjos tradicionais estão muito melhor incorporados. Para quem possui vínculo forte com a gravação original, talvez desapareça um pouco daquela sensação de documento encontrado no início de uma trajetória.

Mas considero esse um preço bastante pequeno diante do resultado.

A decisão mais acertada da VÉHÉMENCE foi não tentar apagar “Assiégé”. A versão de 2014 continua existindo e continua contando a história de como essas músicas nasceram. “Assiégé pour l'Éternité” conta outra coisa: mostra no que elas poderiam se transformar depois que a banda encontrou sua formação, sua produção, seu universo narrativo e, principalmente, sua própria linguagem.

Por isso não vejo este álbum como substituto do original.

Vejo os dois como fotografias tiradas do mesmo lugar com doze anos de distância.

O primeiro registra a descoberta. O segundo revela tudo aquilo que, naquele momento, ainda estava apenas começando a existir. E nós ganhamos a possibilidade de ouvir dois grandes discos.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Assiégé pour l'Éternité”,  “Le Sang Respire Encore”, “En Quête du Graal” e “Chant d'Honneur” 

 

9.5/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

Comentários
Comentário enviado com sucesso!