SARDONIC WITCHERY – Hell's Thorns Attack
Portugal | Black Metal
Firecum Records | Clique aqui para adquirir
2026
FORMAÇÃO
King Demogorgon - Vocals, Drums
G. Lucis Ruina - Guitars, Bass
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Alguns discos procuram no passado uma estética. Outros procuram uma linguagem. Em “Hell’s Thorns Attack”, a SARDONIC WITCHERY parece interessada por algo um pouco mais difícil de reproduzir: aquele instante em que o heavy metal extremo ainda transmitia perigo, quando black, thrash, speed e heavy metal não estavam separados por classificações tão rígidas e um riff podia carregar, ao mesmo tempo, a sujeira do underground e a imponência quase heroica do metal tradicional.
É importante fazer essa distinção porque o quinto álbum da SARDONIC WITCHERY trabalha dentro de um território já reconhecível, mas o faz com uma segurança que muda bastante o resultado. Quem venera SLAYER, NIFELHEIM, MANIAC BUTCHER, ou GOSPEL OF THE HORNS identificará rapidamente algumas referências de linguagem, sobretudo na relação entre velocidade, agressividade e construção de riffs. O mérito de “Hell’s Thorns Attack” está menos na novidade desses elementos do que na forma como eles são organizados: há personalidade na escrita, atenção maior aos detalhes e uma preocupação constante em fazer cada faixa avançar com propósito, sem perder força no caminho.
E desta vez, a SARDONIC WITCHERY se superou ainda mais.
Formada originalmente na cidade do Porto, em 2012, por King Demogorgon após o encerramento da INFERNAL KINGDOM, e posteriormente estabelecida nos Estados Unidos, a SARDONIC WITCHERY passou grande parte de sua existência funcionando essencialmente como extensão individual de seu criador. Músicos apareceram em apresentações e gravações específicas, especialmente guitarristas responsáveis pelos solos, mas composição, instrumentos, letras e direção permaneciam principalmente concentrados em King. “Hell’s Thorns Attack” rompe essa lógica: G. Lucis Ruina, que já participava das atividades ao vivo e havia trabalhado em “Barbaric Evil Power”, torna-se oficialmente integrante e participa profundamente do processo criativo.
King Demogorgon continua responsável pelas letras, pelos vocais e pela bateria, mas G. Lucis Ruina assume guitarras, baixo e produção, além de ter contribuído decisivamente para a construção dos riffs. O próprio King admite que encontrou nele a capacidade técnica para materializar ideias que durante anos estavam além de suas próprias limitações como guitarrista. As vozes e baterias foram gravadas no Texas; guitarras e baixo, por Lucis Ruina, em Washington, D.C. O resultado é uma colaboração curiosa: dois músicos separados por milhares de quilômetros, mas musicalmente muito próximos na compreensão do que a SARDONIC WITCHERY deveria se tornar.
Essa mudança aparece imediatamente na qualidade do repertório.
“Hell’s Thorns Attack” possui oito faixas e pouco mais de 35 minutos, e essa duração não aconteceu por acaso. A intenção declarada era eliminar introduções, repetições excessivas e qualquer passagem que diminuísse a tensão. Em comparação com alguns trabalhos anteriores, nos quais determinadas ideias podiam permanecer tempo demais em circulação, aqui há uma preocupação evidente com movimento. Os riffs entram, cumprem sua função e cedem espaço ao próximo ataque. Não há excessos e isso deixa o disco agressivo por natureza!
“Crown of Burning Spikes” estabelece esse princípio logo de cara. Não existe uma longa preparação atmosférica; a música entra no conflito rapidamente, construída sobre bateria agressiva, guitarras que alternam tremolos e ataques de thrash e um refrão pensado quase como grito coletivo. A letra estabelece boa parte da estética do disco: fogo, sangue, guerra, destruição, tronos e vitória infernal, mas musicalmente o aspecto mais importante está na forma como a faixa apresenta a nova arquitetura da banda. Há brutalidade, mas o riff deixa de ser apenas um elemento. Ele conduz a composição. Exatamente como o metal negro deve ser!!
Essa talvez seja a maior diferença de “Hell’s Thorns Attack”.
O black metal continua fornecendo atmosfera, vocal e ideologia estética, mas o thrash e o heavy metal passam a organizar o movimento das músicas. Guitarras não existem apenas para formar uma parede sonora; elas propõem frases, interrupções, mudanças rítmicas, solos e pequenas resoluções. Em alguns momentos há ecos naturais dos primeiros discos da SLAYER, especialmente daquela fase em que a banda norte-americana ainda mantinha uma relação muito próxima com o heavy metal tradicional. O próprio King cita “Show No Mercy” e “Hell Awaits” entre as referências importantes, ao lado de JUDAS PRIEST, SEPULTURA, MANIAC BUTCHER e outros baluartes.
“Hateful Evil Throne” reforça essa característica. O solo colocado logo na abertura já sinaliza que as guitarras terão função mais ambiciosa neste álbum. Depois, a música encontra um riff particularmente eficiente e se desenvolve sobre aquela combinação que a SARDONIC WITCHERY parece finalmente dominar: agressividade suficientemente primitiva para preservar o caráter underground, mas organizada com disciplina suficiente para que os riffs permaneçam depois que a faixa termina. É nesse equilíbrio que o disco mais cresce.
“Unholy Conqueror” amplia o caráter marcial. A letra abandona parte da sexualidade ritualística que aparece em outros momentos e constrói uma figura destruidora, avançando sobre templos, orações e símbolos religiosos. Musicalmente, a composição carrega um peso mais solene, quase como se a velocidade cedesse alguns centímetros para que a sensação de marcha pudesse ocupar o espaço. Não é simplesmente uma sucessão de blast beats; há uma noção mais cuidadosa de dinâmica.
E então chega “Sabbath of Sadistic Desire”.
É provavelmente a composição em que o imaginário clássico da SARDONIC WITCHERY aparece com menos filtros. Sexo, ritual, sangue, submissão, satanismo e perversidade formam uma cena deliberadamente excessiva. Nada aqui busca sutileza. A letra transforma desejo em liturgia, fazendo do corpo uma extensão do altar. Musicalmente, porém, o interesse está justamente no contraste entre essa imagética quase caricatural de tão extrema e a precisão crescente dos riffs. A banda soa mais selvagem sem precisar soar desorganizada.
É uma distinção importante.
Produção crua e execução descuidada não são sinônimos, embora parte do black metal underground tenha passado décadas fingindo que fossem.
“Hell’s Thorns Attack” preserva aspereza, especialmente na bateria e nos vocais, mas permite que as guitarras tenham clareza suficiente para revelar os detalhes. Os solos se destacam mais, o baixo recebe presença e os riffs possuem contorno. A produção não tenta transformar a SARDONIC WITCHERY numa banda moderna de metal extremo, perfeitamente comprimida e esterilizada. Ainda existe poeira nas engrenagens. A timbragem da bateria, por exemplo, soa tão orgânica que deixa toda a sonoridade da banda ainda mais violenta. Um verdadeiro espanco sonoro voltado para mentes doentias. Não há elogio melhor que este para uma banda que exala ferocidade.
A segunda metade começa com aquela que considero conceitualmente uma das músicas mais interessantes do álbum.
“Ego Sum Rex Ignis Aeternus” (algo como “Eu sou o rei do fogo eterno”) desacelera a sensação de ataque contínuo o suficiente para introduzir solenidade. As invocações em latim, os efeitos de eco e a própria construção vocal fazem a música assumir um caráter ritualístico mais pronunciado. King descreve a figura central como uma entidade eterna associada a poder, fogo e escuridão, e essa dimensão cerimonial oferece ao disco algo essencial: contraste.
“Cult of a Thousand Horns” volta a aumentar a velocidade, mas carrega uma das combinações mais interessantes entre black/thrash e heavy metal tradicional do trabalho. Há riffs que não esconderiam a admiração pelo JUDAS PRIEST, colocados dentro de uma composição recheada de vocais estridentes, coros e imagens ritualísticas. O refrão é simples, repetitivo e calculado para funcionar coletivamente, daqueles que parecem ter sido escritos já imaginando punhos erguidos diante de um palco. Há até pequenos elementos de teclado que ampliam a atmosfera sem quebrar a brutalidade.
“Raped by Horrendous Night” muda novamente o tipo de ameaça. A letra transforma a própria noite em entidade hostil, uma força que observa, envolve e destrói. A música acompanha esse clima com trechos de andamento intermediário e uma sensação menos exclusivamente veloz. É um detalhe que parece pequeno, mas ajuda muito o sequenciamento: quando o álbum chega à sétima faixa, a SARDONIC WITCHERY já poderia simplesmente acelerar até o fim. Em vez disso, introduz peso e cadência antes da explosão final.
E “Dark Moon Slaughter” encerra o álbum de maneira particularmente reveladora.
Talvez seja a faixa que melhor sintetize aquilo que a banda alcançou neste trabalho.
Há black metal, naturalmente, mas também riffs profundamente ligados ao heavy e ao speed metal. O refrão introduz “Lobos de Guerra” em português e recupera algo da identidade lusitana que King Demogorgon nunca abandonou completamente, mesmo vivendo há anos no Texas. A música parece viajar por diferentes momentos da formação musical de seus autores: metal tradicional, thrash, black metal, riffs de combate, solos e aquela teatralidade infernal que acompanha a SARDONIC WITCHERY desde o início.
É quase uma pequena história do metal extremo contada em quatro minutos e meio.
E isso nos leva ao que talvez seja a maior qualidade de “Hell’s Thorns Attack”: apesar de toda a devoção declarada ao passado, o álbum não soa como cosplay de 1985.
King Demogorgon é bastante claro ao afirmar que não queria simplesmente recriar uma época. A intenção era recuperar algo daquela relação antiga com riffs, personalidade e perigo, mas utilizar isso dentro da identidade construída pela SARDONIC WITCHERY. É justamente aí que o disco se diferencia de boa parte da cacetada de lançamentos que resgatam os anos 80. Não existe esforço para reproduzir artificialmente o que era feito naquela época, nem necessidade de envelhecer o som para provar autenticidade. A banda compreende que tradição não significa imitação.
Nos trabalhos anteriores, a paixão pelo metal tradicional já aparecia, mas frequentemente como detalhe dentro de uma estrutura predominantemente black metal. “Moonlight Sacrifice Ritual” (2020) começou a ampliar essa presença; “Barbaric Evil Power” (2024) colocou o heavy metal mais perto do centro; “Hell’s Thorns Attack” completa o movimento trazendo thrash e speed metal para dentro do black metal maldito produzido pela banda. O resultado não parece uma troca de identidade, mas uma identidade que finalmente encontrou espaço suficiente para mostrar todas as suas influências. O próprio King descreve essa sequência como evolução, não ruptura.
A entrada de G. Lucis Ruina foi decisiva para isso.
Há algo simbólico em uma banda que passou mais de uma década construída em torno da independência quase absoluta de um único músico descobrir que dividir o processo criativo não necessariamente dilui sua personalidade. Neste caso aconteceu o contrário. A SARDONIC WITCHERY soa mais como ela mesma justamente quando King permite que outra pessoa leve determinadas ideias além daquilo que ele poderia executar sozinho.
Isso talvez explique a sensação de maturidade presente no álbum.
Não maturidade entendida como suavização.Não há absolutamente nada suave aqui, mas como domínio maior das próprias ferramentas.
Até o projeto gráfico acompanha esse salto.
A capa foi criada pelo artista indonésio Jenglot Hitam e, curiosamente, não nasceu especificamente para a SARDONIC WITCHERY. A ilustração já existia havia anos e estava disponível para venda quando King a encontrou. Segundo ele, bastaram poucos minutos para decidir que aquela era a imagem de “Hell’s Thorns Attack”. A escolha faz sentido: a representação infernal, a violência, o confronto e a estética tradicional do black/thrash traduzem visualmente o que o álbum faz musicalmente. É, também, um avanço evidente em relação ao acabamento gráfico de diversos trabalhos anteriores.
Ao final, “Hell’s Thorns Attack” me parece menos importante pelo que acrescenta ao black/thrash como gênero e mais pelo que acrescenta à própria SARDONIC WITCHERY.
É o disco em que a banda encontra uma relação mais convincente entre violência e composição. A banda sempre foi brutal, ritualisticamente satânica e totalmente devota ao underground. Suas músicas sempre contiveram o aço, o sangue e toda a iconografia extrema.
O que mudou foi a capacidade de transformar tudo isso em músicas ainda mais interessantes.
Os riffs possuem mais personalidade. Os solos deixaram de funcionar apenas como ornamento. A bateria está ainda mais mortal. As mudanças de andamento são mais conscientes. O heavy metal está incorporado à estrutura e não apenas citado. O thrash trouxe movimento. E a produção encontrou um ponto interessante entre sujeira e clareza.
A SARDONIC WITCHERY não abandona a caverna. Apenas descobre que lá dentro também existe aço. E “Hell’s Thorns Attack” soa justamente como esse aço sendo afiado. Um disco recomendado apenas para quem vive o metal extremo como sua principal ideologia de vida. Hail Sathanas!
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Crown of Burning Spikes”, “Ego Sum Rex Ignis Aeternus”, “Cult of a Thousand Horns” e “Dark Moon Slaughter”
9.5/10
(Daniel Aghehost)