YOTH IRIA – Gone With the Devil
Grécia | Black Metal
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2026
FORMAÇÃO
Bill "Vongaar" Stavrianidis - Drums
Nikolas Perlepe - Guitars
Naberius - Guitars
He - Vocals
Jim Mutilator - Bass
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Já faz tempo que os gregos dominam a cena do metal extremo no mundo. Bom, provavelmente a inspiração venha daquilo que aquele país e sua cultura representam para a humanidade.
A sociedade que conhecemos hoje foi moldada por uma história documentada entre muralhas, museus, literatura e personagens.
E, no metal, uau, que deleite! Temos várias bandas lendárias que pavimentaram a estrada do que hoje se tornou o gênero. Para falar desse assunto, contemporâneos dessa história resolveram se encontrar em um projeto, no mínimo, espetacular: o Yoth Iria, encabeçado por Jim Mutilator, que dispensa apresentações.
Esses caras estão em seu terceiro álbum em seis anos. Este último, Gone with the Devil, é um capítulo muito bem escrito dessa história: pesado, envolvente e repleto de camadas. Você vai encontrar músicas densas, como "The Blind Eye of Antichrist", e propostas mais conceituais, como "Once in a Blue Moon". Enfim, o Yoth Iria veio para ficar.
Reinventar? Jamais! Modernizar? Talvez! Mas, com toda certeza, continuar um legado do melhor do metal grego: o encontro entre filosofia, goetia, história e musicalidade.
Hail!!!
8.0/10
(Oxces)
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Poucas bandas carregam um peso histórico tão grande quanto a YOTH IRIA. Afinal, falar de Jim Mutilator é inevitavelmente revisitar uma das raízes do black metal grego. O cara esteve presente nas formações mais icônicas da bandas mais clássicas daquelas paragens. Mas “Gone With The Devil” (lançado oficialmente no dia 8 de maio pela Metal Blade Records e no Brasil pela Black Metal Store) mostra que o grupo não pretende viver apenas da própria herança. Seu terceiro álbum representa uma expansão clara da identidade construída em “As the Flame Withers” (2021) e refinada em “Blazing Inferno” (2024), levando o tradicional black metal helênico para um território mais amplo, onde o peso continua presente, mas divide espaço com melodias marcantes, arranjos sofisticados e uma atmosfera quase litúrgica.
A abertura com "Dare to Rebel" já evidencia essa mudança de escala. Os riffs carregam uma identidade fortemente helênica, mas recebem uma abordagem mais épica do que nos trabalhos anteriores. Existe um senso de grandiosidade que atravessa praticamente todo o disco, sustentado por refrãos memoráveis e por uma construção dinâmica que evita o excesso de velocidade constante.
Na sequência, "Woven Spells of a Demon" preserva o excelente momento do álbum ao equilibrar melodias sombrias com uma construção refinada entre guitarras e camadas atmosféricas. A composição evidencia a maturidade do grupo ao ampliar sua abordagem melódica sem diluir a identidade que vem consolidando ao longo da carreira. As alternâncias entre os vocais agressivos e as passagens limpas de He acrescentam uma dimensão épica à faixa, enriquecendo sua dinâmica sem comprometer a intensidade. O resultado é uma das composições mais acessíveis do disco, mas também uma das mais sofisticadas, demonstrando que a banda consegue expandir sua sonoridade sem abrir mão de sua essência. Pela força de sua construção e pelo impacto de seu refrão, é fácil imaginá-la como um dos pontos altos das futuras apresentações ao vivo.
Outro grande momento surge em "The Blind Eye of Antichrist", talvez a faixa que melhor sintetize a proposta artística de Gone With The Devil. Desde sua introdução, marcada por belos vocais femininos de inspiração regional, a composição estabelece uma atmosfera cinematográfica que se desenvolve de forma natural ao longo de seus diferentes movimentos. O contraste entre passagens cadenciadas, explosões de intensidade, coros e discretos elementos folk confere dinamismo à estrutura, enquanto os riffs, claramente inspirados no heavy metal tradicional, acrescentam personalidade e reforçam o caráter épico da música. A alternância entre os vocais agressivos e as linhas limpas amplia a dramaticidade da interpretação, aproximando o ouvinte da aura ritualística e ocultista que há décadas constitui uma das marcas mais fascinantes do black metal grego.
Antes de entrar na reta final, "I, Totem" reafirma a capacidade da YOTH IRIA de conciliar reverência às raízes com uma abordagem musical cada vez mais madura. Os riffs resgatam parte da agressividade característica dos primeiros trabalhos da banda, mas aparecem inseridos em uma estrutura mais elaborada e dinâmica. A bateria de Bill Stavrianidis conduz a composição com precisão, alternando momentos de maior impacto com passagens que privilegiam a construção da atmosfera. Já a interpretação de He merece destaque especial: sua performance vocal transita com naturalidade entre diferentes intensidades, conferindo profundidade às melodias e reforçando a ambientação obscura que permeia toda a identidade sonora da YOTH IRIA. O que este cara está cantando aqui não é brincadeira!
A produção acompanha perfeitamente essa proposta. O som é limpo, encorpado e extremamente detalhado, permitindo que cada camada encontre seu espaço sem comprometer a agressividade característica da banda. As guitarras permanecem como o centro gravitacional das composições, alternando riffs cortantes, harmonizações de forte apelo melódico e solos cuidadosamente construídos. Ao redor delas surgem coros, elementos folk, passagens góticas e discretas intervenções de instrumentos tradicionais que ampliam a sensação ritualística do álbum sem transformá-lo em um exercício sinfônico exagerado.
"3am" representa um dos momentos mais ousados de “Gone With The Devil”. Seu refrão assume contornos extremamente épicos, impulsionado por uma presença mais marcante de vocais limpos e por uma abordagem melódica mais aberta do que muitos esperariam de uma banda com raízes tão profundamente fincadas no black metal grego. A faixa evidencia a disposição da YOTH IRIA em expandir sua linguagem musical sem romper com sua identidade. No entanto, é justamente nessa busca por novos caminhos que surge o primeiro momento menos inspirado do álbum. Apesar de suas boas ideias, a composição se apoia excessivamente em estruturas repetitivas e acaba perdendo parte do impacto ao longo da execução, tornando-se uma das poucas faixas que não deixam uma impressão tão duradoura quanto o restante do repertório.
A proposta de ampliar os horizontes do álbum continua em "Give 'Em My Beautiful Hell", que acelera o andamento e reforça a influência do heavy metal clássico sem abrir mão de sua essência. A participação da lyra cretense acrescenta uma textura singular à composição, fortalecendo sua identidade regional e enriquecendo a atmosfera. Ainda assim, apesar de seus méritos, a faixa se aproxima bastante da sonoridade explorada por diversas bandas gregas da atualidade e acaba não reproduzindo o mesmo impacto das composições que a antecedem.
Em "Once in a Blue Moon", a YOTH IRIA aprofunda sua faceta mais melódica ao incorporar atmosferas que, em alguns momentos, remetem à fase mais recente do ROTTING CHRIST. As guitarras de Naberius e Nikolas Perlepe conduzem a composição com sensibilidade, criando um ambiente propício para a exploração de novas nuances sonoras e conferindo um caráter grandioso à faixa. Embora o resultado gere uma música bem acessível, a sequência de ideias semelhantes faz com que a reta final comece a dar sinais de desgaste, reduzindo parte do impacto construído até esse momento.
Esse desgaste torna-se ainda mais evidente em "Blessed Be He Who Enters". Embora apresente alguns momentos inspirados, a faixa pouco acrescenta ao conjunto da obra, apoiando-se em ideias já exploradas anteriormente e perdendo força em razão das repetições excessivas.
Na reta final, "The End of the Known Civilization" resgata a intensidade que marcou os melhores momentos do álbum. A bateria acelera, os riffs recuperam a ferocidade do black metal tradicional e os solos acrescentam um vigor renovado à composição, fazendo dela um dos pontos altos do repertório. É uma faixa que devolve parte da energia perdida ao longo da segunda metade do disco, embora sua posição no encerramento reduza o impacto que poderia ter exercido caso surgisse mais cedo na sequência.
“Gone With the Devil” talvez seja um dos discos mais contraditórios que ouvi nos últimos tempos. Seus primeiros minutos são absolutamente envolventes, revelando uma banda segura, criativa e disposta a expandir os limites de sua própria identidade. A combinação entre black metal grego, heavy metal tradicional, elementos folclóricos e uma produção cuidadosa faz parecer que estamos diante de um dos grandes lançamentos do ano. No entanto, à medida que o álbum avança, essa empolgação inicial dá lugar a uma sensação crescente de desgaste. Algumas experiências funcionam muito bem e ampliam o universo sonoro da YOTH IRIA; outras, porém, acabam se apoiando em estruturas repetitivas que diluem o impacto de ideias inicialmente brilhantes.
No fim da audição, permanece uma estranha sensação de conflito. É impossível ignorar a qualidade de diversas composições e o talento dos músicos envolvidos, mas também é difícil deixar de imaginar o quanto este álbum poderia ter sido mais marcante com uma condução menos redundante em sua segunda metade. “Gone With the Devil” continua sendo um bom álbum, repleto de momentos memoráveis, mas suas escolhas fazem com que ele termine distante do potencial extraordinário que demonstrava possuir.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
"Woven Spells of a Demon" , “The Blind Eye of Antichrist”, e “I, Totem”
7.0/10
(Daniel Aghehost)