COUNTESS – The End of Time
Holanda | Black Metal
Indepentente | Clique aqui para adquirir
2026
FORMAÇÃO
Orlok - Bass, Vocals, All instruments, Vocals
Mortüüm - Drums
Häxa - Keyboards
Valgard - Guitars
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Uma das bandas mais ortodoxas do black metal mundial, a COUNTESS está de volta com mais um lançamento voltado para quem aprecia toda a odiosidade que o metal negro tem a oferecer. A banda capitaneada por Orlok nunca esteve interessada em acompanhar tendências, suavizar sua identidade ou conquistar um público maior. Depois de mais de três décadas de trajetória e dezessete álbuns de estúdio, “The End of Time” (lançado de forma independente no dia 1º de maio) reafirma exatamente essa postura: um disco que se mantém fiel a uma visão de black metal construída ao longo dos anos.
Desde a pequena introdução “Battle Dawn”, o disco já estabelece esse clima de guerra ancestral e fim iminente. E quando “Iron Dragons” entra em cena, fica claro que a COUNTESS continua apostando naquela mistura muito própria de riffs simples, mas hipnóticos, teclados que constroem uma atmosfera épica e melodias carregadas de sentimento underground (pegou a referência??). Existe algo quase nostálgico em toda a construção do álbum, como se a banda estivesse aprimorando a sonoridade entregue em clássicos como “Ad Maiorem Sathanae Gloriam” (1995) ou “The Book of the Heretic” (1996).
“Across the Rainbow Bridge” e “Quest for the Book of Wrath” aprofundam ainda mais essa aura fantasiosa e pagã que domina o trabalho inteiro. Melodias primitivas funcionam como fio condutor para as vocalizações de Orlok. Seu timbre rasgado e extremamente peculiar permanece sendo um dos elementos mais divisivos da banda. Para alguns ouvintes, trata-se de uma assinatura inconfundível, carregada de personalidade e completamente integrada ao universo da COUNTESS. Para outros, seu estilo quase declamatório e pouco convencional pode soar exagerado e até mesmo estranho. Independentemente da posição adotada, é impossível negar que poucos vocalistas soam tão imediatamente reconhecíveis dentro do underground.
"Call Upon the Gods of Chaos" surge como um dos momentos mais diretos e combativos do álbum. A construção dos riffs remete ao heavy metal clássico dos anos 80, especialmente pela forma como as guitarras conduzem a narrativa em vez de simplesmente sustentarem a base rítmica. Há um caráter quase marcial na composição, que acompanha perfeitamente a jornada descrita na letra: nove guerreiros atravessando templos esquecidos e paisagens ancestrais em busca do "Livro da Ira", artefato capaz de desencadear a destruição definitiva do mundo. Tudo fica ainda melhor quando baixo e bateria roubam a cena, criando um dos melhores momentos do disco.
A reverência ao metal dos anos 80 transborda em "A Thousand Torches", onde a banda desacelera ligeiramente a agressividade para privilegiar uma construção mais melódica e épica. As guitarras assumem contornos quase heroicos, enquanto os teclados ampliam discretamente a sensação de grandiosidade sem descaracterizar a rusticidade da produção. A letra narra a retomada de um reino por seu verdadeiro herdeiro, iluminada pelas "mil tochas" que rasgam a escuridão durante o ataque ao castelo. Não por acaso, a música transmite uma sensação constante de marcha e preparação para a batalha, reforçada pelo refrão de forte apelo memorável. É uma composição que aproxima a COUNTESS de seu lado mais pagão, presente em seus discos mais recentes.
Já "Beyond the Veils" representa talvez o momento mais contemplativo de “The End of Time”. A velocidade cede espaço a uma atmosfera carregada de solenidade, construída pela interação entre os teclados e riffs melancólicos que parecem flutuar durante toda a execução. Enquanto boa parte do disco trabalha temas de guerra, fantasia e destruição, aqui a banda mergulha em uma reflexão surpreendentemente filosófica sobre tempo, existência e identidade. Essa abordagem confere à faixa um caráter quase litúrgico, transformando-a em um dos momentos mais atmosféricos e maduros do álbum, além de demonstrar como a banda consegue ir além da iconografia tradicional do black metal sem perder sua identidade.
Uma entidade imortal que atravessa a história da humanidade é evocada em “Lord of the Millenia”. A sonoridade não difere muito do restante do álbum, com a banda apostando em bases melódicas que servem como palco para as declamações de Orlok. O protagonista observa (e participa ativamente) de acontecimentos que vão das campanhas de Alexandre, o Grande, à resistência espartana nas Termópilas, passando pelos samurais, Vlad Tepes, o Empalador, William Wallace e até a Guerra Civil Americana. Essa sucessão de episódios não funciona apenas como uma coleção de referências históricas. Ela reforça uma das ideias centrais de The End of Time: impérios surgem, religiões mudam, heróis morrem e civilizações desaparecem, mas os conflitos, o fanatismo e a busca pelo poder permanecem inalterados. Destaque para o belíssimo (porém curto) encerramento com teclados.
Essa percepção desemboca naturalmente na extensa "March Towards the End of Time", talvez a composição mais ambiciosa do disco. Com mais de sete minutos de duração, a faixa abandona de vez a velocidade para construir lentamente uma atmosfera de fatalismo. A COUNTESS trabalha a repetição dos riffs como um recurso narrativo: cada retorno parece representar mais uma volta da roda do tempo descrita na letra, onde nascimento, decadência e destruição deixam de ser eventos isolados para se tornarem parte de um ciclo eterno, transformando a música em uma verdadeira procissão rumo ao apocalipse. Longe de buscar explosões constantes de velocidade, a banda prefere desenvolver uma tensão contínua que faz da marcha anunciada pelo título uma experiência quase inevitável, como se o fim dos tempos não fosse algo distante, mas apenas um capítulo a mais em uma história condenada a se repetir.
Encerrando o disco, "Slaves Shall Serve" surpreende ao trazer o apocalipse para o presente. Em vez de recorrer à fantasia ou à mitologia, guitarras gêmeas conduzem o ouvinte por letras que direcionam sua crítica ao homem moderno, preso a uma rotina mecânica de trabalho, impostos, religião, eleições e guerras travadas em nome de interesses invisíveis. É provavelmente a composição mais explicitamente política do álbum (surpreendente, pois este é um tema pouco tratado pela banda), mas sua abordagem permanece universal ao tratar da alienação como uma condição permanente da humanidade. O refrão, repetido como um mantra, ganha ainda mais força justamente pela simplicidade com que é apresentado, funcionando como uma sentença inevitável após toda a jornada proposta pelo disco. Assim, “The End of Time” encerra sua narrativa de forma coerente: o verdadeiro fim do mundo talvez não esteja nas antigas profecias ou nas batalhas míticas, mas na incapacidade do próprio homem de romper os ciclos que ele insiste em repetir há milênios.
A COUNTESS segue distante da agressividade frenética que domina boa parte do black metal contemporâneo. Os blast beats aparecem apenas em momentos pontuais, enquanto a maior parte do repertório prefere caminhar em andamentos médios, sustentados por riffs simples, diretos e repetitivos. Essa repetição, porém, parece deliberada: o objetivo não é impressionar pela técnica, mas criar uma sensação quase hipnótica, em que pequenas variações melódicas ganham importância ao longo das músicas.
A produção segue exatamente a mesma filosofia. Longe dos padrões modernos de clareza e impacto, “The End of Time” aposta em um acabamento cru, seco e bastante orgânico (em muitos momentos parece que estamos ouvindo um disco dos anos 90). Não há preocupação em esconder pequenas imperfeições ou oferecer uma parede sonora monumental. Pelo contrário: a mixagem preserva uma sensação quase caseira, que reforça a proposta nostálgica do álbum e dialoga diretamente com o espírito primitivo que é tão característico da banda. Em um momento em que muitos discos do gênero buscam um refinamento quase cinematográfico, a COUNTESS parece deliberadamente caminhar na direção oposta. E talvez este continue sendo o seu maior atrativo.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
"Iron Dragons", "Call Upon the Gods of Chaos", "Beyond the Veils" e "March Towards the End of Time"
8.5/10
(Daniel Aghehost)