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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: DEAD VOID – Cranial Devastation (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 21/09/2026 09:44
Resenhas

DEAD VOIDCranial Devastation

DINAMARCA | Death/Doom Metal

Dark Descent Records  / Me Saco Un Ojo |

2026

 

FORMAÇÃO

A - Drums, Vocals

K - Guitars, Vocals

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

O segundo álbum da DEAD VOID foi construído para soar abafado, saturado e profundamente desconfortável. Guitarras e baixo formam uma massa compacta, os vocais parecem emergir de algum ponto distante da gravação e a bateria conserva a reverberação natural do ambiente. Em vez de buscar clareza, o grupo dinamarquês trabalha com a sensação de que cada música foi desenterrada de uma cova há muito tempo fechada.

Sucessor de “Volatile Forms”, lançado em 2022, o disco reúne apenas cinco composições em aproximadamente 35 minutos. O material foi registrado ao vivo em estúdio por Marcus Ferreira Larsen, no No Master’s Voice, com gravações adicionais realizadas pela própria banda. Larsen também assina a mixagem, enquanto a masterização ficou sob responsabilidade de James Plotkin. Lançado pela Dark Descent Records em parceria com a Me Saco Un Ojo, o álbum preserva as pequenas imprecisões e o vazamento entre os instrumentos como elementos de sua atmosfera. 

“Regurgitation of Ancient Manifestations” estabelece imediatamente esse ambiente. A bateria não possui o clique metálico habitual de tantas produções modernas; o bumbo chega pelo volume deslocado de ar, enquanto a caixa ressoa ao fundo da sala. Sobre essa base, guitarras e baixo perdem suas fronteiras individuais e se fundem em uma textura grave, espessa e agressiva. Os vocais também não ocupam o centro da mixagem. Permanecem soterrados, funcionando como mais uma camada de ruído dentro da composição.

Essa escolha aproxima a DEAD VOID de uma tradição do death/doom na qual atmosfera e definição nem sempre caminham juntas. A banda não deseja apresentar cada nota com precisão clínica. Seu objetivo é produzir uma sensação física de confinamento. Por isso, os riffs não são apenas ouvidos: parecem pressionar o ambiente, avançando lentamente até ocuparem todo o espaço disponível.

“Isolation’s Hold” intensifica essa abordagem com uma gravação ainda mais áspera. Os pratos perdem parte do brilho, o bumbo soa seco e distante, e as frequências graves começam a se acumular. A faixa se aproxima deliberadamente do lo-fi, transformando a precariedade sonora em extensão do isolamento sugerido pelo título. É também o momento em que a escolha estética do grupo mais exige do ouvinte. Em determinados trechos, o peso se converte numa massa quase indiferenciada, dificultando a percepção dos movimentos internos da música.

Esse limite entre atmosfera e excesso de saturação acompanha todo o álbum. Para alguns, a falta de separação entre os instrumentos poderá soar como descuido; para outros, será justamente o motivo pelo qual “Cranial Devastation” funciona. A DEAD VOID não tenta conciliar essas duas leituras. A banda assume a obscuridade como princípio e parece pouco interessada em tornar sua música mais confortável ou acessível.

“Phantosmial Stench of Decay” encontra o melhor equilíbrio entre sujeira e definição rítmica. A bateria aparece com maior nitidez e orienta as mudanças de andamento sem enfraquecer o ambiente cavernoso. Quando o grupo abandona o arrastar do doom e parte para ataques mais velozes, a música não perde densidade. Pelo contrário: o contraste faz com que as passagens lentas pareçam maiores e as acelerações, mais descontroladas.

O disco funciona melhor justamente nesses movimentos. A DEAD VOID não permanece presa à lentidão, embora seja nela que construa seus espaços mais ameaçadores. Explosões de death metal interrompem os trechos arrastados, riffs convulsivos surgem dentro da névoa e a bateria rompe momentaneamente a sensação de imobilidade. Não existe uma divisão previsível entre partes rápidas e lentas; as composições parecem se deformar enquanto avançam.

A faixa-título leva essa concepção ao ponto mais alto. Em seus quase dez minutos, “Cranial Devastation” utiliza a duração para criar uma atmosfera que as músicas anteriores apenas sugeriam. As guitarras repetem movimentos lentos e pesados, o baixo amplia a vibração das frequências graves e a bateria pontua a marcha com golpes que parecem ecoar numa sala muito maior do que o próprio estúdio. A composição não procura chegar rapidamente a um refrão ou a uma resolução. Seu efeito depende da permanência, da repetição e da sensação de que aquele peso continuará aumentando.

Quando a velocidade finalmente rompe essa estrutura, a mudança adquire força justamente pelo tempo dedicado à construção. É o exemplo mais convincente de como a DEAD VOID compreende a dinâmica do death/doom: o peso não nasce apenas da afinação grave ou do volume, mas da expectativa criada antes de cada impacto. A banda sabe prolongar a ameaça até que o ouvinte passe a desejar e temer sua liberação.

Depois de quatro composições mergulhadas nessa linguagem, “Jeg Kan Ikke Flygte Fra Mig Selv” oferece o movimento mais inesperado do álbum. Trata-se de uma versão em dinamarquês para uma música de Adrian Borland e da THE SOUND, grupo inglês de pós-punk cuja obra conquistou reconhecimento cult ao longo das décadas. A escolha poderia funcionar apenas como curiosidade, mas a DEAD VOID evita tratá-la como um apêndice.

A canção é absorvida pela mesma estética das faixas anteriores. A melancolia do pós-punk permanece reconhecível, embora reconstruída por guitarras saturadas, baixo distorcido e vocais quase dissolvidos na gravação. O título, que pode ser traduzido como “Não consigo fugir de mim mesmo”, aproxima a angústia de Borland do ambiente claustrofóbico criado pelo DEAD VOID. O que originalmente carregava uma tristeza introspectiva passa a soar como uma tentativa de comunicação a partir de um lugar do qual já não existe saída.

Essa versão também ajuda a compreender o disco como algo maior do que um exercício de brutalidade. Sob a produção sufocante existe uma preocupação com desespero, solidão e deterioração psicológica. A escolha de encerrar o álbum com THE SOUND revela uma sensibilidade que dificilmente seria percebida apenas pela aparência extrema do grupo. Mais do que surpreender, a faixa oferece uma chave para interpretar aquilo que veio antes.

“Cranial Devastation” não é um álbum feito para revelar todos os detalhes imediatamente. Sua produção ao vivo, carregada de frequências graves e reverberações naturais, frequentemente esconde tanto quanto apresenta. Em alguns momentos, especialmente em “Isolation’s Hold”, essa opção reduz excessivamente a definição; na maior parte do tempo, porém, transforma-se na principal força do trabalho.

A DEAD VOID poderia ter produzido um disco mais limpo e provavelmente mais fácil de assimilar. Preferiu registrar o som de dois músicos ocupando uma sala e permitindo que os instrumentos se contaminassem mutuamente. O resultado é um death/doom orgânico, opressivo e pouco interessado nas convenções de uma produção moderna. “Cranial Devastation” não convida o ouvinte a observar suas cavernas de uma distância segura. Empurra-o para dentro e encerra a passagem.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Phantosmial Stench of Decay”, “Cranial Devastation” e “Jeg Kan Ikke Flygte Fra Mig Selv”.

 

8.7/10

 

(Daniel Aghehost)

 

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