RIDE FOR REVENGE – Angels Fly Low
FINLÂNDIA | Experimental Black Metal
Bestial Burst | Clique aqui para adquirir
2026
FORMAÇÃO
Nordic Elukka - Bass
Harald Mentor - Vocals
J. Pervertor - Guitars
Hail Conjurer - Drums
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
A RIDE FOR REVENGE nunca tratou o peso como sinônimo de velocidade. Desde 2001, a banda finlandesa prefere esmagar o ouvinte lentamente, utilizando baixo distorcido, guitarras abrasivas, percussões ritualísticas e uma produção deliberadamente deformada. Em “Angels Fly Low”, essa linguagem alcança uma de suas manifestações mais compactas e sufocantes. O título já anuncia a inversão: aqui, até os anjos precisam voar próximos da terra, talvez porque o céu tenha se tornado um lugar inalcançável.
Lançado em 12 de junho pela Bestial Burst, com edição em vinil pela Nuclear War Now! Productions, o álbum reúne nove faixas em aproximadamente 39 minutos. A formação traz Harald Mentor nos vocais, J. Pervertor nas guitarras, Nordic Elukka no baixo e Hail Conjurer na bateria. Gravado entre 2025 e 2026 e masterizado no Enormous Door, o trabalho preserva a sujeira característica do grupo, mas distribui melhor seus diferentes níveis de violência.
A primeira metade do disco privilegia composições curtas, diretas e construídas para causar impacto imediato. Com menos de três minutos, “Saddle the Hellstorm” abre o álbum impondo desde o início uma sonoridade opressiva: guitarras e baixo saturados, bateria arrastada e quase hipnótica e vocais ásperos, lançados à frente com uma ferocidade que remete ao caráter primitivo do black metal do fim dos anos 1980. A letra reforça essa sensação ao transformar o narrador em uma espécie de morto-vivo dotado de vontade própria, enquanto o instrumental avança sem pressa, pesado e ameaçador, uma característica que há tempos distingue a RIDE FOR REVENGE de boa parte do gênero.
Aqui, a violência não depende de velocidade; ela nasce justamente da impressão de que cada passo é pesado o bastante para esmagar o que estiver pela frente.
“As the Mountain Shakes Again” amplia essa imagem por meio de trovões, tempestades elétricas e uma antiga bruxa canalizando forças no alto de uma montanha. A repetição não funciona como ausência de ideias, mas como método de concentração. Baixo e bateria insistem nos mesmos movimentos até que eles deixem de parecer apenas partes de uma música e assumam a forma de um ritual. A guitarra de J. Pervertor não busca clareza melódica: acrescenta ruído, atrito e profundidade à massa sonora. Seu clímax surge quando o instrumental cessa e Harald Mentor vocifera ao ouvinte, naquela atmosfera que apenas bandas como ARCHGOAT conseguem criar.
O peso arrastado permanece em “Destruction of Sanctuaries”, faixa que aprofunda a atmosfera sufocante do disco ao associar a destruição do santuário à perda de qualquer sensação de proteção. O título pode ser lido para além do sentido religioso: o “santuário” surge como espaço de segurança, intimidade ou refúgio, e sua ruína transforma esse lugar em uma espécie de cripta psicológica marcada pela dor. A música traduz essa ideia sem oferecer alívio. O andamento lento, a densidade do instrumental e a ausência de qualquer resolução reforçam a sensação de aprisionamento, como se cada passagem empurrasse o ouvinte para uma camada ainda mais corrosiva da proposta da RIDE FOR REVENGE: um mergulho em águas cada vez mais turvas, pesadas e hostis.
Com pouco mais de dois minutos, “In the House of Old Blood” concentra algumas das imagens mais perturbadoras do álbum sem abandonar a linguagem que define a RIDE FOR REVENGE. A curta duração não significa aceleração: a ferocidade permanece, mas surge submetida a um peso tão intenso que mesmo o andamento arrastado produz uma sensação constante de angústia. Cães em sofrimento, falta de ar, veias saltadas, aranhas e uma manhã aparentemente interminável compõem um cenário em que as lembranças parecem adquirir matéria orgânica. O narrador encontra conforto na noite não porque ela ofereça uma saída, mas porque a luz apenas torna o pesadelo mais nítido. A brevidade impede um desenvolvimento mais amplo dessas imagens, mas também parece cumprir uma função precisa dentro do álbum: condensar a tensão em uma descarga curta e sufocante antes da expansão que virá a seguir.
“Vampires in My Mirror” mostra que a RIDE FOR REVENGE consegue sustentar sua força também em composições mais longas. Ao longo de pouco mais de seis minutos, a faixa trabalha com variações discretas, sem romper com a lógica repetitiva que sustenta sua atmosfera, e justamente por isso alcança um efeito quase hipnótico. Os riffs pesados e sombrios avançam em ciclos, criando um transe físico que convida o ouvinte a simplesmente acompanhar o movimento, sentindo o peso que emana do conjunto. A letra desloca a figura do vampiro para dentro do próprio sujeito: ele não surge como uma presença externa, mas como reflexo de uma transformação interior em que deuses ocupam a mente, a misericórdia se torna fraqueza e a busca pelo domínio absoluto conduz à perda da dignidade. Musicalmente, a repetição é aprofundada por baixo, bateria e ruídos que reforçam a sensação de aprisionamento, enquanto os vocais de Harald Mentor atuam como elemento de opressão, sem oferecer qualquer possibilidade de alívio. O espelho, aqui, não devolve simplesmente uma imagem: revela aquilo que já estava oculto atrás dos olhos.
Essa perspectiva também atravessa “Four Stands in Judgement”. Quatro figuras, com raízes no lugar dos pés, assumem a posição de juízes enquanto cruzes são destruídas e religiões colocadas sob acusação. A natureza, porém, não surge como mãe acolhedora ou fonte de pureza: é fria, silenciosa e indiferente, numa correspondência direta com a sonoridade construída pela banda. O caráter áspero, primitivo e repetitivo da faixa certamente não se destina a qualquer ouvinte, especialmente àqueles que esperam maior elaboração técnica ou mudanças constantes de dinâmica. Para quem encontra prazer justamente na sujeira, na insistência e no peso bruto do metal extremo, porém, há aqui uma força difícil de ignorar. A leitura proposta pela letra parece caminhar na mesma direção: talvez o ser humano invente deuses porque não suporte a ideia de que as árvores continuarão crescendo depois de sua morte e de que a terra não precisa de explicações para receber seus ossos.
O ponto central do álbum está em “Darkness Watches You Masturbate”. O título pode soar como simples provocação, mas a letra desenvolve uma das ideias mais interessantes do disco: a escuridão observa sem julgar. Ao contrário das religiões, que transformaram o corpo, o desejo e a intimidade em territórios de culpa, a noite não absolve nem condena. Ela apenas permanece.
Ao longo de seus nove minutos, a RIDE FOR REVENGE leva sua linguagem hipnótica ao limite. O tempo parece adquirir peso, e a repetição deixa de sugerir movimento para transmitir uma sensação quase sufocante de imobilidade. Há algo profundamente humano nessa construção: desejamos que o universo aprove nossas escolhas ou castigue nossas transgressões porque a indiferença pode ser mais perturbadora do que qualquer inferno. Um juiz pode ser temido, contestado ou até subornado; o silêncio, não.
Musicalmente, a faixa amplia essa sensação de desconforto. A bateria de Hail Conjurer é conduzida com brutalidade contida, criando a base perfeita para que o baixo de Nordic Elukka e a guitarra de J. Pervertor preencham o espaço com camadas de pura morbidez. Os vocais hipnóticos de Harald Mentor permanecem como um dos grandes destaques, conduzindo a música com uma presença quase ritualística. Quando surgem os vocais limpos, porém, acontece algo ainda mais estranho: em vez de aliviar a atmosfera, eles tornam tudo ainda mais sujo, doentio e inquietante. A mudança de registro acrescenta um caráter quase espectral à faixa e reforça a impressão de que algo está profundamente errado.
Mesmo trabalhando com poucas variações, a banda consegue alterar a percepção do andamento e manter a tensão crescente. Essa é uma das grandes qualidades de “Angels Fly Low”: a capacidade de recuperar a sensação crua das demos de black metal do fim dos anos 1980, como se tudo tivesse sido registrado durante um ensaio em uma garagem mal iluminada da Finlândia.
“Papittaren valinta”, título que pode ser traduzido como “A escolha da sacerdotisa”, aparece como a única instrumental. Posicionada depois da composição mais extensa, funciona como passagem entre o centro conceitual do álbum e seu desfecho. A ausência da voz não elimina a narrativa. Depois de tantas palavras sobre julgamento, morte e culpa, o instrumental parece sugerir que algumas escolhas só podem ser feitas quando todos os discursos finalmente se calam.
O encerramento com “De Mysteriis Ulviliae” abandona qualquer necessidade de horror sobrenatural para encontrar matéria suficiente no mundo real. A faixa remete ao assassinato de Jukka S. Lahti, ocorrido em 2006 na cidade finlandesa de Ulvila, caso cercado por versões contraditórias, falhas na investigação, DNA contaminado, condenações posteriormente anuladas e acusações envolvendo satanismo. O crime permanece sem solução, e é justamente essa impossibilidade de estabelecer uma verdade definitiva que alimenta a atmosfera da composição.
A referência a “De Mysteriis Dom Sathanas”, do MAYHEM, está evidente no título, mas funciona menos como homenagem musical do que como porta de entrada para um mistério muito mais concreto. Musicalmente, a RIDE FOR REVENGE encerra o álbum com uma de suas faixas mais lo-fi e, talvez, a que mais se aproxima do doom. A bateria assume um andamento mais contido e cadenciado, enquanto baixo, guitarra e ruídos preservam a dissonância deliberada que atravessa o disco. Sobre essa base quase imóvel, os vocais deixam de apenas atacar e assumem um caráter mais declamatório, conduzindo a narrativa como se relatassem lentamente os fragmentos de uma investigação que nunca conseguiu encontrar seu ponto final. É uma faixa menos imediata do que algumas das anteriores, mas também uma daquelas que crescem significativamente a cada nova audição. Bruxas, vampiros e demônios pertencem ao território da imaginação; uma casa, uma morte e a incapacidade humana de organizar a verdade não precisam de qualquer intervenção sobrenatural para produzir horror.
A produção poderá afastar quem procura definição, equilíbrio ou a violência cristalina dos discos contemporâneos. O baixo frequentemente ameaça engolir as guitarras, a bateria possui uma presença primitiva e os vocais de Harald Mentor surgem como uma declamação deteriorada. Porém, limpar esse som significaria retirar justamente aquilo que lhe dá identidade. “Angels Fly Low” não deseja reproduzir fielmente os instrumentos; quer registrar o impacto provocado pelo choque entre eles.
Talvez seja essa a forma mais verdadeira do terror: descobrir que ninguém observa para nos salvar ou punir. Os anjos voam baixo não porque estejam próximos dos homens, mas porque também perderam o caminho para o céu.
E a RIDE FOR REVENGE traduz essa ideia com uma sonoridade que se recusa a qualquer polimento desnecessário. Tudo permanece cru, áspero e primitivo, como se cada riff tivesse sido arrancado diretamente de uma velha fita demo esquecida no fundo de alguma garagem finlandesa. Para quem sente falta dessa brutalidade sem verniz, “Angels Fly Low” oferece exatamente aquilo que muitos discos atuais já não conseguem preservar: o desconforto, a sujeira e a força de um metal extremo que ainda soa perigoso.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“As the Mountain Shakes Again”, “Vampires in My Mirror”, “Darkness Watches You Masturbate” e “De Mysteriis Ulviliae”
9.5/10
(Daniel Aghehost)