TOKYO BLADE – Hoist the Colors High
Inglaterra | Heavy Metal
Dissonance Productions |
2026
FORMAÇÃO
Steve Pierce - Drums
Andy Boulton - Guitars
Alan Marsh - Vocals
John Wiggins - Guitars
Andy Wrighton - Bass
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Quatro décadas depois de seus primeiros registros, a TOKYO BLADE segue ampliando uma discografia marcada por mudanças de formação, interrupções e diferentes direcionamentos musicais. Lançado em 21 de agosto de 2026 pela Dissonance Productions, “Hoist the Colours High” sucede “Time Is the Fire”, de 2025, e reafirma a associação do grupo britânico com o heavy metal tradicional. Com 14 composições e aproximadamente 69 minutos de duração, o álbum reúne características que acompanham a banda desde os anos 1980, mas também evidencia sua disposição em explorar estruturas mais extensas, variações melódicas e passagens de maior dramaticidade.
A presença de John Wiggins e Andy Boulton continua sendo fundamental para essa identidade. O trabalho de guitarra preserva a combinação de riffs sólidos, harmonizações e solos melódicos que ajudou a estabelecer a TOKYO BLADE entre os nomes da New Wave of British Heavy Metal. Alan Marsh, por sua vez, mantém uma interpretação que alterna aspereza e melodias mais abertas, sem depender exclusivamente dos registros agudos associados ao heavy metal da época. O resultado é um trabalho que reconhece suas origens sem se limitar à reprodução da sonoridade de “Tokyo Blade” (1983) e “Night of the Blade” (1984).
“Screaming Evil” abre o repertório com um riff de andamento médio, bastante próximo da escola alemã de heavy metal, especialmente pela maneira como as guitarras sustentam a pulsação da música. A entrada de Marsh acrescenta agressividade à composição, enquanto o refrão oferece o primeiro exemplo da abordagem melódica que atravessa o disco. “Too Wired to Sleep” intensifica o ataque, com uma condução mais acelerada e guitarras que recuperam aspectos característicos da NWOBHM. Já “Get Me Outa This” introduz uma cadência mais cadenciada, apoiada na relação entre baixo e guitarra, com um refrão que procura equilibrar peso e acessibilidade.
A faixa-título amplia essa proposta. Com mais de seis minutos, “Hoist the Colours High” abandona a urgência das primeiras músicas e aposta em uma construção de caráter épico, sustentada por riffs de andamento médio, passagens melódicas e desenvolvimento instrumental. O refrão funciona como ponto de convergência da composição, enquanto as guitarras assumem papel importante na sustentação de sua extensão. A imagem de resistência sugerida pelo título encontra correspondência na própria permanência da TOKYO BLADE, embora musicalmente o interesse esteja menos nessa associação simbólica e mais na maneira como a banda organiza suas ideias ao longo da faixa.
“I'm Gonna Rise” apresenta outro exemplo dessa combinação entre peso e melodia. Os riffs alternam passagens mais densas e movimentos ascendentes, enquanto o trabalho de guitarra recupera algo da tradição do heavy metal britânico sem abrir mão de uma abordagem mais próxima do hard rock. Em “Sweet Desolation”, o grupo desacelera e permite maior participação das melodias vocais, explorando uma atmosfera mais emocional. A música oferece um contraste importante em relação às primeiras composições, embora também introduza uma das características que se repetem no repertório: a preferência por desenvolvimentos relativamente longos e refrões de construção semelhante.
A sequência formada por “When the Hammer Falls” e “Last Man Standing” recupera parte da intensidade. A primeira se apoia em uma pulsação firme, riffs diretos e melodias facilmente identificáveis, mantendo proximidade com a tradição da NWOBHM. A segunda investe em uma construção mais dramática, com guitarras que procuram estabelecer uma atmosfera cinematográfica e maior espaço para a interpretação de Marsh. São abordagens diferentes de uma mesma identidade musical, mostrando que a banda não depende exclusivamente da velocidade para estabelecer peso e presença.
O caráter melódico volta a ganhar espaço em “This Time”, composição de andamento mais contido, na qual a interpretação vocal assume maior protagonismo. “Mr. Nobody”, por outro lado, encontra nas guitarras e na construção de sua atmosfera os elementos de maior interesse. O solo merece atenção dentro de um álbum em que Andy Boulton frequentemente utiliza esse recurso para ampliar o desenvolvimento das músicas, e não apenas como uma demonstração isolada de habilidade instrumental. “I Don't Need No Enemies” retoma uma abordagem mais direta, conduzida por riffs de acentuação marcada e um refrão que mantém a preocupação da banda com a construção de melodias reconhecíveis.
É nesse ponto, entretanto, que a duração do trabalho merece ser considerada. Apesar da qualidade dos músicos e da existência de boas ideias ao longo das composições, a recorrência de determinados andamentos, estruturas de refrão e soluções de guitarra pode reduzir o contraste entre as faixas. A TOKYO BLADE demonstra segurança naquilo que se propõe a executar, mas nem todas as músicas parecem acrescentar elementos suficientes para justificar uma sequência tão extensa. Não se trata necessariamente de falta de inspiração, e sim de uma questão de organização do repertório: algumas composições poderiam adquirir maior impacto em um álbum mais conciso.
“Devil in the Red Mist” ajuda a recuperar a intensidade na reta final. Com pouco mais de três minutos, a música apresenta uma abordagem mais veloz, baseada em guitarras harmonizadas e uma condução próxima das primeiras gerações do heavy metal britânico. Sua objetividade contrasta com as estruturas mais longas que predominam em outros momentos. Na sequência, “She Was a Soldier” volta a explorar uma atmosfera dramática, com introdução marcada pelas frequências graves e uma interpretação vocal que procura acompanhar o desenvolvimento emocional da composição.
O encerramento fica a cargo de “Wasting My Time”, que privilegia melodias mais suaves e uma abordagem próxima da balada de hard rock. A escolha evidencia uma característica presente em diferentes momentos da trajetória da banda: a disposição de trabalhar com elementos melódicos sem abandonar inteiramente sua identidade como banda de heavy metal. Depois de um repertório extenso, o encerramento mais contido também reforça a impressão de que “Hoist the Colours High” não foi concebido para manter uma intensidade uniforme, mas para reunir diferentes possibilidades dentro da linguagem musical do grupo.
Em seu conjunto, “Hoist the Colours High” apresenta uma TOKYO BLADE que continua reconhecível, especialmente pelo trabalho de Andy Boulton e pela interpretação de Alan Marsh. A banda preserva a relação com o heavy metal britânico dos anos 1980, mas incorpora elementos de hard rock, melodias mais desenvolvidas e composições de caráter dramático. A duração e a recorrência de determinadas soluções impedem que todas as faixas produzam o mesmo impacto, embora existam momentos em que essa combinação de experiência e identidade musical funciona de maneira satisfatória.
Mais do que uma tentativa de recuperar o passado, o álbum representa a continuidade de uma banda que encontrou uma forma relativamente estável de trabalhar com sua própria história. A TOKYO BLADE não procura revisitar seus clássicos em “Hoist the Colours High”, mas demonstra que ainda possui repertório e disposição para acrescentar novos capítulos a uma trajetória iniciada há mais de quarenta anos.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Screaming Evil”, “Too Wired to Sleep”, “Hoist the Colours High”, e “She Was a Soldier”
8.7/10
(Daniel Aghehost)