MONSTROSITY - Screams From Beneath The Surface
(Metal Blade Records)
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Veteranos incontestáveis do Death Metal da Flórida, a MONSTROSITY nunca foi exatamente uma banda prolífica, mas sempre foi cirúrgica. Desde clássicos como “Imperial Doom” (1992) e “Millennium” (1996), o grupo construiu uma discografia enxuta, porém consistente, marcada por técnica afiada e brutalidade sem concessões. Mesmo tendo revelado ao mundo um nome como George 'Corpsegrinder' Fisher (CANNIBAL CORPSE), a banda seguiu firme após sua saída, consolidando uma identidade própria ao longo das décadas.
O intervalo de oito anos desde “The Passage of Existence” apenas aumentou a expectativa, e “Screams From Beneath The Surface”, lançado pela gravadora Metal Blade no dia 13 de março deste ano, surge como um manifesto de longevidade criativa. Mais do que um retorno, é uma reafirmação: os veteranos ainda sabem exatamente como soar relevantes em um gênero que eles ajudaram a moldar.
O disco se abre com “Banished To The Skies”, e aqui já vem o primeiro choque. Longe de um ataque direto, a banda opta por uma construção mais arrastada, quase épica, com forte presença melódica e nuances que flertam com o death metal mais progressivo. É um início ousado e estratégico. A faixa estabelece o tom de um álbum que não pretende apenas revisitar o passado, mas expandi-lo para áreas pouco visitadas pela banda. Destaque de cara para o belíssimo trabalho de Matt Barnes e o novato Justin Walker que mostram todo o requinte que as guitarras podem ter no Death Metal.
Na sequência, “The Colossal Rage” funciona como um lembrete imediato: sim, esta ainda é MONSTROSITY que você conhece. Rápida, caótica e visceral, a música traz blast beats implacáveis ( mostrando porque o veterano Lee Harrison é um dos bateristas mais incríveis do Death Metal mundial) e riffs cortantes, evocando aquela violência clássica que remete, inevitavelmente, ao que de melhor do metal da morte já produziu, mas com identidade própria.
“The Atrophied” mantém a intensidade, mas adiciona um refinamento técnico notável. Há um cuidado maior nas transições e um uso interessante de harmonias e efeitos que enriquecem a audição. Já “Spiral” mergulha em uma atmosfera mais opressiva, quase claustrofóbica, onde o peso se manifesta menos na velocidade e mais na densidade. Estas duas faixas sintetizam muito bem a essência encontrada neste disco: total respeito ao Death Metal, mostrando porque a banda é uma das mais icônicas do movimento.
Um dos pontos altos do álbum surge com “Fortunes Engraved In Blood”, que equilibra agressividade com linhas melódicas bem trabalhadas. Aqui, fica evidente como a MONSTROSITY aprendeu a usar melodia sem comprometer o impacto, sendo este um dos grandes trunfos do disco. É inegável o talento vocal de Ed Webb, porém, nesta faixa, é possível perceber toda a versatilidade de seu alcance vocal. Um primor!
A trinca “Vapors”, “The Thorns” e “Blood Works” representa o lado mais direto do álbum. São faixas que apostam na brutalidade crua, com riffs esmagadores e uma pegada mais tradicional. Funcionam como um bloco sólido de death metal old school, sem firulas, mas extremamente eficiente. Quando a banda acelera o ritmo, as coisas melhoram consideravelmente. Não que os momentos mais melódicos sejam ruins, muito pelo contrário, mas é inegável que a velocidade de “Vapors” (perfeita para moshs), o ataque apocalíptico de “The Thorns” ou o caos promovido em “Blood Works” (faixa que combina blasts com seções groovy que lembram bandas como SUFFOCATION e INTERNAL BLEEDING, com o baixo de Mark Van Erp brilhando nas transições) são mais empolgantes ao inveterado fã.
Já “The Dark Aura” desacelera o ritmo e traz uma abordagem mais sombria e arrastada, quase doom em certos momentos. A atmosfera aqui é sufocante, com synths sutis e screams estendidos, como uma fusão pútrida entre AUTOPSY e ASPHYX, mostrando que a banda ainda sabe explorar diferentes dinâmicas sem perder coesão. Um momento que gera estranheza de início, mas que conquista em seu andamento.
Encerrando o álbum, “Veil Of Disillusion” retoma a velocidade e a agressividade, fechando o disco com um verdadeiro bombardeio técnico. Os riffs são intrincados, a bateria é incansável e os solos trazem um certo flerte neoclássico que adiciona um brilho especial ao desfecho.
A base rítmica formada por Lee Harrison e Mark Van Erp é simplesmente impecável. O baixo, aliás, ganha destaque raro dentro do gênero, com presença clara e pulsante no mix.
Nas guitarras, Matt Barnes e Justin Walker entregam um trabalho de alto nível, equilibrando técnica e feeling com naturalidade. Há riffs memoráveis, solos afiados e uma variedade de ideias que evita qualquer sensação de repetição.
Mas talvez o grande destaque seja o vocalista Ed Webb. Seu desempenho aqui é brutal e imponente, com guturais profundos que remetem à tradição do gênero, mas com personalidade suficiente para não soar como mera sombra de seus predecessores.
A produção aposta em uma sonoridade mais orgânica e menos polida, o que pode dividir opiniões. Por um lado, reforça o caráter old school; por outro, pode soar menos impactante para ouvintes acostumados com produções modernas mais densas.
EM POUCAS PALAVRAS:
DESTAQUES:
Riffs hipnóticos e repletos de identidade, vocais intensos e absolutamente convincentes, teclados responsáveis por uma atmosfera sombria, imersiva e quase litúrgica que transforma cada faixa em um ritual. Estes são os principais destaques de “Blessed”.
Não dá para não citar também as faixas “Blessed” e “Dictionnaire Infernal”, que possuem todos os adjetivos superlativos aqui presentes.
PONTOS DE ATENÇÃO:
Da mesma forma que muitos irão exaltar a habilidade da NERGAL em revitalizar com impressionante fidelidade a essência do black metal grego clássico, outros podem perceber nessa escolha uma fronteira delicada entre homenagem e dependência estética. Em vários momentos, os riffs evocam com tamanha precisão a sonoridade dos anos 90 que parecem ecos diretos de uma era consagrada, o que pode levantar questionamentos sobre o grau de originalidade da banda. Ainda assim, para os puristas, essa familiaridade é justamente parte do encanto de “Blessed”; já para ouvintes que buscam expansão ou ruptura dentro do gênero, a recorrente sensação de déjà-vu pode alimentar o eterno debate entre tradição e inovação, um equilíbrio tão difícil quanto essencial para qualquer grupo fortemente ancorado em um legado.
EXTRA-MÚSICA:
Sim, absolutamente. Se você curte death metal old school com cérebro, brutalidade sem firulas e veteranos que ainda quebram pescoços, este é obrigatório. Há momentos de ousadia, principalmente nas abordagens mais melódicas e atmosféricas, mas o coração do álbum continua sendo a brutalidade técnica que definiu a banda desde o início. Para fãs de CANNIBAL CORPSE, SUFFOCATION, MALEVOLENT CREATION e todos que valorizam a essência da Flórida.
VALE A PENA?
Sem hesitação: Sim! E com sobras. “Blessed” não apenas reafirma a força criativa da NERGAL, como também se posiciona com autoridade entre os pontos mais altos de sua discografia. Ao mesmo tempo em que reverencia o espírito clássico do black metal grego, o álbum entrega uma experiência intensa, coesa e profundamente atmosférica, sustentada por riffs magnéticos, vocais convincentes e uma produção irrepreensível. Ainda que o apego às raízes possa soar conservador para alguns, é justamente essa convicção estética que transforma o disco em uma audição quase ritualística. Para os devotos do gênero, e especialmente para aqueles que valorizam tradição executada com excelência, “Blessed” não é apenas recomendável; é um registro que merece ser ouvido, revisitado e celebrado.
8.8/10
(Daniel Aghehost)
TRACK LIST
1. Banished to the Skies
2. The Colossal Rage
3. The Atrophied
4. Spiral
5. Fortunes Engraved in Blood
6. Vapors
7. The Thorns
8. Blood Works
9. The Dark Aura
10. Veil of Disillusion